O maravilhoso e o absurdo

Neste momento de pandemia, de platô de mortes no Brasil, com a acomodação e o aceite da população a um número de óbitos que equivale a alguns acidentes de avião diários, eu tenho mergulhado, para sobreviver, na Filosofia do Absurdo, de Albert Camus, e na leitura e releitura de Contos Maravilhosos. A Arte e a Fantasia são pílulas mágicas.

Gabriel García Marquez, vencedor do Nobel de Literatura em 1982, quando discursou na Conferência Nobel* daquele ano como premiado, chamou atenção para a surrealidade da vida em seu país e na América Latina. Em um trecho, ele afirmou:

Ouso pensar que é esta realidade descomunal, e não somente a sua expressão literária a que este ano mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade que não é a do papel, mas que vive conosco e determina cada instante de nossas incontáveis mortes cotidianas, e que sustenta um manancial de criação insaciável, pleno de desdita e de beleza, do qual este colombiano errante e nostálgico não é mais do que uma cifra determinada pela sorte. Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque o maior desafio para nós tem sido a insuficiência de recursos, convencionais para fazer crível nossa vida. Este é, amigos, o nó da solidão. (grifo meu)

Como viver assim? O maravilhoso, o que se entende como maravilhoso na literatura, não pode ser absorvido no cotidiano, na vida ordinária. O maravilhoso abarca tudo aquilo que escapa ao racional. Só que o absurdo nos atinge justamente quando o que estamos vivendo na realidade é tão sem sentido que supera o que podemos ler na ficção. Em seu livro A peste, Camus** mostra, em certo momento, seu narrador analisando as ações da sociedade depois de um longo período de pandemia ainda não superada. O narrador diz:

Todos os dias, por volta das onze horas, nas artérias principais, há um desfile de homens e de mulheres jovens em que se pode sentir essa paixão de viver que cresce no seio das grandes desgraças. Quanto mais a epidemia se estender, mais a moral se tornará elástica. (p. 115, grifo meu***)

É isso! Quanto mais a epidemia se estende, mais a moral das pessoas se torna elástica.

Estamos vivendo uma pandemia com altas taxas de mortes diárias e vemos a naturalização disso por aqueles que não podem renunciar, por exemplo, às idas ao bar com os amigos, às festas, à praia… Afinal, a vida continua, não é mesmo? Moral elástica! Ela serve para o que interessa; é descartada quando atinge interesses particulares. E quem diz ou faz o contrário em respeito ao que há de mais precioso que é a vida não passa de um “maricas”. Aí está o insólito do que estamos vivendo. Os que se protegem e protegem os outros é que são vistos como fracos, medrosos, neuróticos. Como já havia percebido García Marques tempos atrás, vivemos o mesmo aqui, agora. Nossos escritores, poetas, artistas e loucos-beleza estão sendo superados pelo irracional da atual realidade. O maravilhoso, enquanto algo que vai além do aceitável em nossa concretude humana, parece estar se tornando real. Só que este “livro vivo” não nos tem trazido as boas fadas, os príncipes belos e corajosos nem as belas moças das histórias. As páginas estão repletas de lobos e monstros, do grotesco saindo de dentro dos homens.

Plagiando este grande escritor Nobel: Este é, amigos, o nó da solidão. Talvez seja esta a verdade: ninguém segura a mão de ninguém. Há uma multidão vivendo a concretização do cada um por si e o mundo que se exploda.

O Globo impresso, 01 de novembro de 2020, página 12. Disponível também aqui.

* In: Conferência Nobel apresentada em 8 de dezembro de 1982. Áudio em espanhol disponível aqui.

**CAMUS, Albert. A peste. 29ª.ed., Rio de Janeiro: Record, 2020.

*** Já utilizei esta citação em outra publicação aqui no blog, mas ela me diz muito sobre o ser humano e está o tempo todo martelando em minha cabeça.

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