Morte concreta X Morte abstrata

Há momentos em que acho que devo estar enlouquecendo ou que sou exagerada demais. Tenho vivido este período de pandemia numa aridez interna imensa. Trabalho demais produzindo material didático para meus alunos e mantenho meu nível intenso de leitura dos últimos anos, mas não tenho conseguido escrever. Faz mais de um mês que nada publico aqui. E já faz um bom tempo que não escrevo nem frequento redes sociais, como Facebook ou Instagram, para comentar ou discutir sobre esse momento, tão sem pé nem cabeça, que estamos vivendo sob o jugo de uma reviravolta absurda de um conservadorismo tacanho e destruidor de tudo o que conquistamos com muita luta. É assustador!

Às vezes, algumas pessoas de uma determinada visão podem achar que perguntas vindas de pessoas com visão distinta são apenas provocações. No entanto, eu, particularmente, bastante curiosa que sou, tenho ficado cheia de dúvidas e questionamentos sobre alguns temas e gostaria realmente de conseguir entender o ponto de vista do outro. Acho que discordâncias políticas são saudáveis e visões divergentes mais ainda, e me parece, também, que saber ver como o outro pensa e a partir de que ponto é um exercício importantíssimo para desenvolver a empatia.

Agora mesmo tenho uma dúvida gigantesca sobre a discussão que se faz, de um lado, quanto à obrigatoriedade ou não da vacina; de outro, quanto ao direito ou não ao aborto. Sei que existem pessoas que pensam de formas totalmente distintas sobre esses dois temas também distintos; entretanto, enxergo neles um ponto comum: a defesa da vida.

Então, lanço – com as minhas reflexões e angústias, claro – a pergunta que não tem a intenção de ser provocativa nem retórica. Eu realmente quero apenas entender…

Como pode um mesmo governo, de um lado, defender o direito de o “cidadão de bem” ter a liberdade de decidir tomar ou não uma vacina (indicando que é uma decisão pessoal, isto é, de âmbito privado, e que ninguém tem o direito de obrigá-lo a isso, mesmo sabendo das consequências da não imunização para a saúde dos demais cidadãos. Só que, ao levantar essa discussão, vai de encontro a algo que antes era tão comum e natural a nós, brasileiros, que acaba incentivando a não vacinação, podendo atingir, assim, outras campanhas, até, então, bem-sucedidas), e, de outro, lutar contra o direito ao aborto já garantido por lei em casos específicos (além de obviamente negar qualquer possibilidade de luta da mulher pelo direito de decidir pela manutenção ou interrupção da gravidez)? Isto é, com relação à vacina, a meu ver, não há a mesma concepção de defesa da vida acima de tudo, enquanto o princípio ideológico que rege os defensores da lei antiaborto é justamente a defesa da vida. É esse o ponto que não faz sentido para mim.

Estou em busca de alguma coerência nessa grande colcha de retalhos que temos para hoje. Aliás, essa mesma pergunta poderia ser feita também em comparação com a negação da pandemia, a negação da necessidade de isolamento, o incentivo à vida normal de ir e vir, com tudo aberto e funcionando, sem preocupação com a contaminação pela Covid e as mortes… Vou-me ater, porém, somente ao ponto inicial específico levantado, porque toda essa loucura me parece infindável. Então, vamos lá:

Por que junto esses dois temas distintos?

Porque, a meu ver, ambos mexem com o que há de mais sagrado em nossa existência: a vida e a morte do outro.

Penso que os posicionamentos distintos existem porque, no aborto, trata-se de uma vida bem concreta e ideologicamente “palpável” para alguns; já, na vacina, trata-se de vidas abstratas porque não há um ser específico sendo visivelmente descartado. É como se fosse um tiro no escuro que pode acertar ou não alguém, mas, como é na sorte – ou no azar –, a abstração distancia as pessoas da realidade. Acho que o mesmo se dá com relação ao que vivemos agora no que diz respeito à manutenção do isolamento e à obediência ao uso de máscara. As pessoas não se sentem responsáveis quando não conseguem se enxergar como possíveis vetores da morte do outro, porque tudo parece ser estatística distante e, na egocêntrica onipotência humana, pensa-se que nada vai acontecer.

Li este mês A peste, de Albert Camus**, e uma passagem me marcou profundamente, trazendo à luz uma triste justificativa para essa questão. O narrador do romance, analisando as ações da sociedade num determinado momento, diz:

Todos os dias, por volta das onze horas, nas artérias principais, há um desfile de homens e de mulheres jovens em que se pode sentir essa paixão de viver que cresce no seio das grandes desgraças. Quanto mais a epidemia se estender, mais a moral se tornará elástica. (p. 115, grifo meu)

Como sabiamente nos mostra Camus (por isso amo os clássicos!), a nossa moral pode variar de acordo com a situação, segundo o que nos atinge! Isso é muito sério!!! E, o pior, acho que a gente não consegue, muitas vezes, enxergar essa variação. Venho escutando com muita atenção o que algumas pessoas dizem e como elas encaram o isolamento, o cuidado com o outro, o uso de máscara, o respeito às regras de não aglomeração… e percebo que Camus acertou na mosca: moral elástica…

Um outro ponto que me chama muita atenção e me faz pensar sobre o que impulsiona essas questões é que, no aborto, a pessoa mais atingida é a mulher, enquanto ser social; por sua vez, na vacina, embora atinja igualmente a todos, na visão de uma sociedade regida e capitaneada por “machos alfa”, o direito de escolha do homem, da sua liberdade pessoal, da sua macheza e virilidade é abalada e isso mexe demasiadamente com os brios masculinos.

Aí está, a meu ver, o resultado de discussões que se baseiam não em possíveis políticas públicas que se preocupam com o desenvolvimento da sociedade e com o bem-estar de seus cidadãos. O que estamos vivendo parece mais um ringue ideológico em que, num lado do cage, há homens (machos, hetero, em sua maioria brancos) que querem viver em liberdade total e incondicional e, do outro lado, grupos religiosos que se submetem a alguns engodos patriarcais para sustentar seus moralismos com base em sua fé. Só que eles não estão lutando um contra o outro. Eles somam suas forças para vencerem um inimigo ilusório, um fantasma criado por eles mesmos para assombrar os que se deixam levar pelas histórias de destruição intencional e com fins ideológicos da liberdade do homem de bem e da moral e dos bons costumes da família cristã brasileira. Isso se resume a uma coisa: Poder. É a velha luta pelo poder. Afinal, sempre foi assim: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, mas quem perde esse tipo de luta é sempre os que menos têm e os que mais morrem, nesta nossa ingrata e absurdamente desigual “mãe gentil”.

Será que estou viajando muito?!

**CAMUS, Albert. A peste. 29ª.ed., Rio de Janeiro: Record, 2020.

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