Um desabafo em grupo familiar de Whatsapp

Eu tenho estado muito triste, muito triste mesmo com o que estamos vivendo. Tão triste que me dói dentro do corpo, dentro da alma, me dá ânsia de vômito e me falta energia. Tenho escrito pouco. Costumava expressar minhas percepções de mundo por meio de textos, mas escrever o que estamos vivendo, neste momento, me desgasta, porque o ódio que vem dessas pessoas é destruidor mesmo. Há meses não publico nada nas redes sociais (nem aqui em meu blog. Estou criando forças para voltar agora.).

Fico me perguntando quem, dos que replicam, por exemplo, as críticas ao educador Paulo Freire, já o leu, de fato, e já investigou a sua biografia. Sim, porque a primeira coisa que devemos fazer, antes de sair feito papagaios repetindo o que outros dizem (principalmente a partir de recortes), é investigar na fonte. Caso contrário, estaremos incorrendo seriamente no erro de ir contra o 8o Mandamento da Lei de Deus. Cito o mandamento por uma questão simples: embora seja defensora de um Estado Laico, um governo que coloca Deus acima de todos deveria, acima de tudo, primar pela real verdade, pelo todo, pelo inteiro, porque quem recorta, exclui, destrói é o ser humano.

Uma pequena curiosidade que deveria ser investigada por todos, principalmente pelos que querem criticá-lo…

O chamado Método Paulo Freire nunca foi aplicado em larga escala, nunca foi imposto como método educacional no Brasil, muito menos como único método a ser seguido. Só durante a censura e o exílio que a teoria realmente se desenvolveu e se espalhou pelo mundo, não desde aqui. A prática ficou restrita a pequenos laboratórios como o que havia sido feito em Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963, com 300 pessoas, mas não deu tempo de ir adiante. Logo depois ele foi exilado, e o projeto, extinto. E só uma coisa que considero bem importante destacar: o método foi desenvolvido para a alfabetização de adultos. Adultos! E sua base central é muito simples: conhecer o outro, conhecer aquele que será alfabetizado para, a partir de seu mundo e de suas experiências, facilitar o processo de ensino e aprendizagem, cativando-o, mostrando que há significado na junção daquelas letras que nada dizem a quem passou a vida longe delas. O diálogo, a troca, o sentido daquilo são partes que vão ser a base de tudo  Isso é apaixonante, mas também revolucionário, simplesmente porque dá o direito à voz àquele a quem nada tinha sido dado até então. O oprimido (termo que assusta tanta gente) passa a ser visto como alguém cuja experiência tem valor. (Me vem à cabeça aquele lindo filme “Escritores da liberdade“, disponível atualmente no Netflix ou para alugar no YouTube.)

Não desce em minha garganta também uma crítica tão minimalista que se faz a professores universitários – e também a professores de escolas públicas federais como eu. Acho importante que se entenda que pesquisa não se desenvolve dando 40h de aula semanais para 300, 400 alunos. Às oito, dez, doze, quinze horas em sala de aula, são somadas – mas que não interessa dizer – inúmeras horas de orientação de alunos, de desenvolvimento de pesquisas, de análise e publicação de artigos, de muito estudo, porque para produzir conhecimento (olhem aí o coronavírus pra provar) é preciso muito estudo.

Assim como fazem parte da carga horária diária de trabalho de, por exemplo, um militar o exercício físico, o tiro, o toque da bandeira etc. (vivencio isso diariamente na escola-quartel em que trabalho); assim também como fazem parte das atividades diárias dos padres a leitura e o estudo, a oração e a (co-)celebração de missa (diária!), além de inúmeras outras atribuições de seu trabalho, cabe ao professor não só ministrar aulas, mas também corrigir, estudar, ler, pesquisar, orientar, escrever, relatar, documentar, produzir material… Sua gama de trabalho ultrapassa semanalmente muito mais do que as 40h de um trabalhador horista comum.

É criminoso o que estão fazendo contra a minha categoria profissional.

O trabalho de um professor universitário não pode se limitar ao que esse grupo entende – e que, curiosamente, Paulo Freire criticava e chamava de “Educação Bancária”, isto é, a educação baseada apenas na transmissão de conhecimento (o professor senta à frente de sua turma e transmite aos seus pupilos, por n horas, seus conhecimentos sem que os alunos interajam ou perguntem/questionem). O trabalho do professor vai muito além e quem o critica é porque não vive essa realidade e, quando se faz passar por professor, é uma farsa.

Aliás, Olavo de Carvalho parece ser exatamente esse tipo de “professor”. Logo no início de seu curso, numa construção maravilhosa de pura ilusão e convencimento (nisso ele é bom), o “filósofo” avisa aos seus alunos que eles precisam aprender muito antes de começar a perguntar qualquer coisa. Isto é, OC, detentor do conhecimento, está ali como transmissor, e o aluno, tábula rasa, está ali para ouvir e aprender (ser doutrinado naqueles ensinamentos?) sem poder questionar.

Sinto dizer, mas o trabalho do verdadeiro professor pressupõe troca o tempo todo, discussão, debates, releituras. Além, claro, quando também pode ser pesquisador, de idas a Congressos, publicações, análises de publicações… Mas, para fazer tudo isso, é necessário produzir experimentos em laboratórios (que não são exclusividade das áreas de exatas ou biomédicas). O Sociólogo, o Antropólogo, o Linguista, o Historiador etc. trabalham em laboratórios também, mas isso não interessa, não é? Afinal, esses pesquisadores não devem existir porque eles atrapalham, eles gritam quando se deparam com massacre, desumanização, desigualdade… Fascismo.

Por isso é tão necessário desvalorizar para destruir o trabalho dos professores, as universidades públicas, e valorizar o ensino privado, os professores horistas que vão ao local de trabalho apenas ministrar algumas aulas e não vão se envolver com pesquisa por serem apenas uma pequena parte da grande engrenagem alienante, acrítica, robotizada.

Existem universidades particulares maravilhosas e sérias, mas o que está se construindo com um projeto como o Future-se, por exemplo, não está ligado ao que há de bom nessas universidades.

É preciso conhecer para falar.

O Brasil é um país de 210 milhões de habitantes (em 2018). Entender os problemas educacionais pressupõe conhecer a nossa realidade gigante. Nós passamos de 72 milhões nos anos 1960, 120 milhões nos anos 1980, 175, nos anos 2000, para os 210 milhões atuais Em 60 anos a população triplicou. A Educação pública tida como excelente (questionável) nos anos 60 (que os militares e a direita tanto gostam de se apropriar) era para poucos, pouquíssimos em uma proporção que hoje representaria atender a uma ínfima parte de um 1/3 do que é hoje a população atual. Não é sequer justo comparar. As escolas atingiam, claro, a uma elite. Aliás, eu me lembro muito bem, quando criança, das filas para matrícula nas escolas públicas. Pais dormindo dias e dias na rua para conseguir uma vaga para seus filhos. Anos 1980! Praticamente ontem.

Lembro também do meu privilégio, que me assombra até hoje. Eu e meus irmãos ganhamos vaga no Colégio Municipal Georg Pfisterer, furando fila, só porque um tio trabalhava na Secretaria de Educação. Já naquela época isso me marcou muito (assim como as divisões de turmas dentro do colégio estipuladas por uma “meritocracia” da imagem e da origem, segundo o olhar de d. Marília, a diretora “Marilhão”). Isso tudo mexe comigo, me entristece, me envergonha.

Se é para falar de Educação de verdade, é necessário investigar tudo desde lá atrás. Quantos brasileiros foram alfabetizados pelo Mobral? Alguém se lembra do Mobral? Pois é, falam tanto de Paulo Freire que ficou exilado por 15 anos e só esteve em uma Secretaria de Governo no Estado de São Paulo por menos de 2 anos e meio entre 1990 e 1991, mas não se lembram de fazer uma autocrítica à corrupção e aos dados falsificados pelo programa de alfabetização implantado nos anos 1970, já desmascarados por censos nos anos 1980. Não interessa ver os próprios podres, não é mesmo? Deixemos a merda bem enterrada, esquecida.

É lógico que temos um problema gigante na Educação. Para universalizar o acesso em um país como o nosso, mantendo, ao mesmo tempo, um nível de qualidade é, como há muito vivenciamos, impossível sem um projeto que ultrapasse as barreiras dos governos. Daí a necessidade de valorizar os professores, promover e incentivar a formação continuada, desenvolver projetos de premiação de escolas, patrocinar olimpíadas, criar vínculos de diálogo com experiências que deram certo, criar bolsas de pesquisa e convênios com outras universidades, somar escola e família, (re)conhecer o público de cada região para atuar com propriedade… Isso tudo não é “privilégio” ou sei lá que nome os destruidores dão. É investimento. E tudo tem de ser feito simultaneamente e a longo prazo, para muito além de governos, isso tem de ficar bem claro. Porque os resultados não aparecem em 4, 8, 12 anos. Para começar a dar algum fruto, a Educação Básica é um projeto de 12 anos completos. Se contarmos com a pré-escola cujo acesso começou a se desenvolver principalmente neste século (agora! século XXI), seriam 16 anos.

Mas… quando começamos a ver algumas pequenas conquistas de minorias até então alijadas do processo, vem uma onda contrária que para tudo, a fim de destruir as pequeninas conquistas que “pertenceriam” a outro grupo. Sim, pequeninas. Porque o grupo que lá esteve também estava longe de ser perfeito, não era isento de corrupção, não era isento de gente irresponsável e mau caráter. Isso vai muito além de partido ou de ideologia.

A desumanidade é do ser humano.

O problema, porém, é que as disputas ideológicas que voltaram a ser tão acirradas nos últimos anos geraram uma cegueira criminosa. Se o objetivo é, de fato, o desenvolvimento da Educação no Brasil, não se pode jogar o que existe de bom no lixo. Isso significa jogar pelo ralo a água suja da banheira com o bebê banhado. Não dá para começar do zero, não dá para impor um método único de alfabetização, não dá para difamar, caluniar, desonrar instituições e professores.

É aviltante.

Gostaria muito de acreditar que é ingenuidade, mas, infelizmente, é criminoso mesmo, intencional. Se conseguimos dar um pequeno passo para frente nos últimos 20 anos com a universalização das escolas, e estava começando a existir uma entrada um pouco menos desigual nas universidades públicas e particulares de qualidade com as bolsas, vamos dar um enorme passo atrás com esse criminoso projeto de privatização do ensino. Ou vocês acham que não há interesses escusos por trás disso? O professor também é um trabalhador contratado e, muitas vezes, com seus direitos vilipendiados. Como estudar, se atualizar, produzir conhecimento precisando ministrar 60 horas/aula semanais para não morrer de fome e, pior, sabendo que seus direitos legais estão sendo retirados (férias, 13º, FGTS que muitos empregadores nem pagam direito)?

Vivamos à mercê dos empresários! Afinal, são eles que, há muito, governam nosso país e vão governar com muito mais poder, quanto mais enfraquecermos instituições como a de Ensino e a de Justiça e abrirmos mão de nossos direitos como estamos fazendo.

Para encerrar, deixo uma pergunta para reflexão:

Qual deve ser a “lavagem cerebral” mais arriscada ao cidadão comum: 1) aquela que lhe mostra que ele é um oprimido e precisa lutar pelos seus direitos, pela democracia, pelas instituições ou 2) aquela que o ilude dizendo-lhe que todo aquele que lutar, estudar, trabalhar sério vai conquistar seu espaço neste mundo porque merece (e quem não conquistar é porque não se dedicou como deveria)?

Fico por aqui. Triste e chocada.

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