A ralé brasileira, Jessé Souza

“Muitos brasileiros gostam de saídas ‘mágicas’, decretos que mudam o mundo com uma penada, uma política pública salvadora e genial, ou seja, tudo que tenha que ver com mudanças ‘lá fora’, que nunca acontecem nele mesmo, no seu coração e na sua mente, e nem, consequentemente, na forma como cada um de nós percebe o mundo. É esse brasileiro que se perguntaria ao terminar a leitura deste livro: afinal, depois de tanta crítica, qual é a solução? Quando alguém faz uma interpelação desse tipo, na verdade, o que se demanda é algo do tipo: qual é a sua ‘magia’ para mudar o mundo com um estalo de dedos?”

Este é o primeiro livro que leio do sociólogo Jessé Souza. Para falar a verdade ainda estou bastante impactada com as 500 páginas de uma análise tão contundente da sociedade brasileira. Acho que fui premiada ao iniciar por ele porque me parece que foi nesta pesquisa que o sociólogo criou e sedimentou o conceito de “ralé”, como a classe dos subumanos, mais de 1/3 da nossa população.

Tenho que dizer que, embora de leitura fluida e acessível para todos os leitores de boa vontade, o texto é extremamente forte e por vezes indigesto. Ele desnuda verdades – que, com toda sinceridade, os “homens de bem” (por isso a necessidade de ser um leitor com boa vontade) não querem tomar conhecimento – e expõe realidades que destroem princípios básicos de nossa formação tão centrada em privilégios meritocráticos que nos são invisíveis.

Há muito sinto e penso algumas coisas que Jessé Souza pesquisou, interpretou, organizou, documentou e relatou. Este livro me mostra que o meu sentimento de desconcerto no mundo não é em vão nem é loucura. Queria muito (olha aí o meu desejo mágico) que toda a sociedade formadora de opinião tivesse boa vontade e coragem de ler e refletir sobre as questões discutidas e visse nos tipos exemplificados a nossa miséria social e cultural.

“É esse tipo de consenso em benefício das classes dominantes e aceito como legítimo pelas classes inferiores que possibilita que, não na lei, mas na vida nossa de cada dia, algumas pessoas e classes estejam acima da lei e outras pessoas e classes sociais inteiras, abaixo dela. Existe como que uma rede invisível de ‘acordos nunca explicitados’ que une desde o policial que faz o ‘trabalho sujo’ que as classes média e alta exigem dele, passando pela imprensa que transforma em espetáculo comercial uma violência não compreendida e manipulada, até o debate acadêmico e político que mais esconde e descontextualiza do que mostra e critica. São esses ‘acordos de classe’, que parecem ‘orquestrados’ tamanha a coincidência de interesses, que podem funcionar tão bem precisamente porque, na dimensão consciente dos debates explícitos, esses acordos e sua extraordinária eficácia podem ser substituídos por ‘intencionalidades de novela’, como da ‘elite má’, abstratamente definida e que, portanto, não incomoda ninguém. Esse é o segredo da violência simbólica de uma dominação social singular na sua perversidade e no seu número, a qual, no entanto, pode ser vivida com ‘boa consciência’ pelas classes média e alta, posto que os culpados são sempre os ‘outros’.”

Fiquemos, para fechar e gerar curiosidade e vontade de ler A ralé brasileira: quem é e como vive, com a tese que Jessé Souza explicita em seu livro.

“Minha tese é que existe um ‘consenso inarticulado’ que perpassa toda a sociedade brasileira que diz que é normal e natural que a nossa sociedade seja dividida em gente e subgente, e é esse consenso que permite a reprodução da maior desigualdade social do planeta dentre as sociedades complexas. Ele é obviamente um consenso ‘não admitido’,  que nenhum brasileiro de classe média jamais confessaria partilhar, e é isso que permite sua eficácia como consenso real, que produz cotidianamente a vida social e política brasileira como ela é, sem que ninguém se sinta ‘responsabilizado’ por isso. Ao contrário, a ‘culpa’ e a ‘responsabilidade’ são sempre do ‘Estado patrimonial’ ou de uma elite abstrata, que se aplica a todos e a ninguém, sendo, portanto, uma referência inofensiva e pseudorradical que não incomoda ninguém. Esses consensos jamais são discutidos na imprensa ou na mídia cujo lucro vem da venda do ‘espetáculo’ do ‘teatro’ de acontecimentos e eventos soltos sem relação entre si e que jamais são compreendidos em seu contexto.”

Obs.: Os trechos transcritos aqui estão no capítulo de conclusão do livro A ralé brasileira. Infelizmente o livro físico está esgotadíssimo. Comprei a versão digital, devorei-o com uma sede insaciável, mas não tenho como indicar as páginas. Quero muito o livro físico. Se alguém quiser me dar ou me vender o seu livro físico, pode entrar em contato comigo, que vou ser a leitora mais feliz do mundo.

Vou partir agora para a leitura de A elite do atraso.

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