Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves

A sola do pé conhece toda a sujeira da estrada.

Provérbio africano (Cap. 6)

Eu ainda estou muito impactada, sem condições de fazer uma resenha detalhada. Que poder tem a narradora-personagem Kehinde! Que mulher! Que força! Que história!

Viajei muito pelos lugares por onde a personagem passa, vive e sobrevive, principalmente Salvador, Itaparica e Rio de Janeiro. Lia e pesquisava nomes, referências históricas, lugares. Uma aula!

Ana Maria Gonçalves criou uma história ficcional que nos faz reviver e sentir – sofrer profundamente, chorar, sorrir, torcer, urrar… – momentos únicos e preciosos de nossa história real. Se eu, sendo branca, me sinto hoje, com a consciência que vou criando, enganada por perceber que muitos desses acontecimentos me foram negligenciados ou contados por outro viés – viés este que privilegia meu grupo, mas não preenche a minha humanidade -, fico imaginando meus irmãos pretos e pardos que sempre tiveram suas vozes caladas, suas histórias apagadas e suas poucas conquistas menosprezadas para não promoverem autoestima e coragem.

Dar voz a uma menina africana, trazida para o Brasil para ser escravizada, e poder ouvir por essa voz parte da nossa História é uma experiência imperdível. Afinal, até há pouco, vivíamos o apagamento de suas memórias por meio da desvalorização continuada das histórias orais e escritas dos negros. E o que mais me dói é ver o quanto ainda existe gente tentando fazer isso o tempo todo. Lembro que faz pouco tempo vi memes no FB acusando os negros de valorizarem Zumbi como seu herói e não destacarem Luiz Gama, mostrando que este era um grande advogado e libertador de escravos, enquanto aquele mantinha escravos em seu quilombo. Penso, primeiramente, que honrar antepassados não significa criar falsas ilusões sobre quem eles eram, como viviam e o que faziam, até porque momentos históricos distintos proporcionam ações distintas. Entretanto, criticar o não destaque de Luiz Gama é desconhecer o quanto o apagamento imposto nos meios intelectuais, majoritariamente branco, atrasou a possibilidade de grandes atores históricos negros serem (re)conhecidos. Basta lembrar de nossos livros didáticos de História… A Academia, historicamente branca, também teceu por anos e anos a manutenção de seu status quo embranquecido. Se hoje ouvimos falar mais de Luiz Gama, de André Rebouças entre outros, é porque há vozes negras gritando há muito tempo dentro e fora da Academia, mas somente agora os ecos estão chegando aos nossos ouvidos.

Sempre escrevo aqui sobre a importância da Literatura para nossas aprendizagens. Ela nos ajuda a desenvolver empatia. Por meio das experiências pelas quais passamos com as vidas que podemos viver através das personagens com que nos relacionamos ao longo do mergulho nas histórias, somos levados a conhecer mundos distantes, realidades distintas e emoções até então impossíveis à nossa limitada vida. Se História é memória e a História é escrita pela memória dos que têm a pena ou a caneta em suas mãos, o que conhecemos é apenas um viés a partir do foco que se deu a uma seleção. Nada é gratuito. Nada é por acaso. Não é à toa que o advogado Luiz Gama e o engenheiro André Rebouças, com profissões de brancos, não tiveram seus feitos destacados em nossas aprendizagens ordinárias. Também não é à toa que Machado de Assis foi embranquecido na pele e nas análises de seus primorosos escritos. É por isso que Um defeito de cor é uma ficção fundamental hoje. Verossimilhança que nos traz vários alertas. O título por si só já dá destaque a algo tão forte e cruel. Ser negro é ser defeituoso?!

O Banjokô vivia muito bem na casa da sinhá, tinha boas roupas, um bom quarto, brinquedos, comida à vontade, horários certos para comer e dormir, estava aprendendo a tocar piano e a sinhá tinha grandes planos para ele, como colocá-lo para estudar assim que ficasse um pouco mais velho. Por outro lado, eu era a mãe dele, não ela. Ela sempre seria a dona, impondo sua vontade, fazendo dele o que bem quisesse e não o que ele pudesse vir a querer de fato. Eu não me espantaria se, na corte, ela o mandasse estudar para ser padre, apoiada pelo padre Notório, achando que o Banjokô deveria ficar agradecido por seguir tão nobre carreira. Com a influência do padre Notório, ela logo conseguiria para ele uma dispensa do defeito de cor, que não permitia que os pretos, pardos e mulatos exercessem qualquer cargo importante na religião, no governo ou na política. (p. 337, grifo meu)

Uma das coisas que mais estranhei em Lagos foi que havia muitos missionários pretos ou mulatos, instruídos em Freetown, o que não acontecia entre os missionários ou padres franceses e brasileiros, todos brancos ou mulatos que se passavam por brancos. Eu me lembro de ouvir o John falando que em Freetown até mesmo escravos podiam ser missionários, e perguntei ao padre Clement por que isso não acontecia entre os católicos. Ele disse que realmente não era usual, que não conhecia pessoalmente nenhum missionário católico ou padre preto, mas que havia, como havia até um ex-escravo que tinha se tornado santo por ordem de um papa também chamado Clemente, o São Benedito. Sobre São Benedito eu já sabia, mas fiquei muito espantada com o que ouvi logo depois, que em uma época não muito distante da nossa, os religiosos europeus se perguntavam se os selvagens da África e os indígenas do Brasil podiam ser considerados gente. Ou seja, eles tinham dúvida se nós éramos humanos e se podíamos ser admitidos como católicos, se conseguiríamos pensar o suficiente para entender o que significava tal privilégio. Eu achava que era só no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que não, que em África também era assim. Aliás, em África, defeituosos deviam ser os brancos, já que aquela era a nossa terra e éramos em maior número. O que pensei naquela hora, mas não disse, foi que me sentia muito mais gente, muito mais perfeita e vencedora que o padre. Não tenho defeito algum (…) (p. 892-893, grifo meu)

Ana Maria Gonçalves consegue com essa saga de Kehinde abrir nossos olhos para o que nos foi negado. Temos muito o que buscar para entender o mundo em que vivemos e a desigualdade e a crueldade racial que assola nosso país. Negar o racismo estrutural, o racismo institucional só faz recair sobre nós ainda mais os erros do passado.

Aprendendo muito. Um dia de cada vez. Por isso sempre peço que, seu eu tiver cometido em meu texto algum erro, alguma impropriedade, que me ajudem a aprender mais.

Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saiba pelo menos de onde vens.

Provérbio africano (Cap. 8)

GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. 23a ed., Rio de Janeiro: Record, 2020.

Está saindo uma nova edição este mês! O “tijolo” de quase 1000 páginas pode assustar, mas o conteúdo precisa ser lido e a viagem é avassaladora.

3 comentários

    • Vale muito o investimento! Depois me conta o que achou. Descobri, no meio de minha leitura, um grupo de pós-graduação que está lendo e discutindo o livro mais voltado para as experiências de vida no YouTube, todas as 4as feiras, às 16h, mas fica lá gravado. Procure o endereço: “leituras negras ifb”, que vale muito a pena Bjs

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