Sobre a fragilidade branca, uma leitura urgente!

Li este livro em duas noites. A urgência veio da necessidade pessoal de lidar com o que vivi internamente diante da fúria das redes sociais contra a crítica que a professora Lilia Schwarcz, autoridade em História e Antropologia sobre escravidão e racismo, embora branca e consciente de seus privilégios, fez ao último trabalho lançado por Beyoncé (Black is King). Considerei o pedido de desculpas dela em relação ao racismo pessoal que transpareceu em sua crítica muito pertinente, mas me assustei com tamanha agressividade nas redes sociais (cultura do cancelamento?!) a uma professora que vem fazendo um trabalho antirracista tão intenso. Sobre isso, falarei em breve aqui. Hoje quero apenas transcrever um trecho deste livro, cujo título em inglês é White fragility: why it’s so hard for White people to talk about racism.

Quer você defina racismo como preconceitos raciais e atos individuais ou como um sistema de desigualdade racial que beneficia brancos à custa das pessoas de cor (como o fazem os antirracistas), seus pais não poderiam tê-lo ensinado a não ser racista, assim como não poderiam ser eles mesmos isentos de racismo. Uma educação imune ao racismo é impossível, porque o racismo é um sistema social entranhado na cultura e em suas instituições. Nascemos dentro desse sistema e não temos como não ser afetados por ele. Entendo que muitos pais dizem a seus filhos para não serem racistas, mas a prática de nossas vidas é mais poderosa do que as palavras que dizemos, e viver uma vida segregada é uma mensagem de prática poderosa. Evidentemente, há gradações, e é certamente mais construtivo ser informado de que o racismo é errado, não certo, mas isso ainda é insuficiente para nos vacinar completamente contra a cultura circundante.

Imaginemos que a real intenção da pessoa fosse dizer: “Meus pais não eram racialmente preconceituosos e me ensinaram a não o ser”. Esta afirmativa ainda seria falsa porque é humanamente impossível sermos imunes ao preconceito. Tal afirmação simplesmente indica que a pessoa não tem ciência do processo de socialização e das inescapáveis dinâmicas da cultura humana. Os pais de determinada pessoa podem ter dito que não eram preconceituosos e, com isso, negado seu preconceito. Eles podem ter dito a seus filhos, como os pais, negarem o próprio preconceito. Os pais podem ter esperado e acreditado sinceramente que estavam educando filhos não preconceituosos, mas não podemos ensinar humanos a não terem preconceito algum. O cérebro humano simplesmente não funciona desse jeito como processamos informações a respeito dos outros. Muitos de nós ensinamos nossos filhos apenas a não admitirem o preconceito. Um pai treinando um filho a não dizer certas coisas abertamente racistas está ensinando à criança autocensura e não a examinar as mensagens raciais profundamente entranhadas que todos nós absorvemos. Num mundo ideal, ensinaríamos nossos filhos a reconhecer e a desafiar o preconceito; jamais a negá-lo. (p. 109-110, grifos meus)

Por enquanto é isso. Ainda estou tentando digerir as porradas que levei ao ler este livro. Tenho ainda uma enorme estrada a trilhar para diminuir as minhas marcas racistas inconscientes entranhadas. Só o que quero é ser uma pessoa melhor nessa vida. As lutas e buscas são diárias. Preciso começar enxergando mais os meus erros e limitações. Tenho muito a agradecer a Lilia Schwarcz, que nunca saberá, pelo tanto que me ensinou com seu pedido público de desculpas, e à minha filha Luiza, que me ensina dia a dia em nossas deliciosas conversas.

DIANGELO, Robin. Não basta não ser racista: sejamos antirracistas. São Paulo: Faro Editorial, 2018.

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