Você tem uma Lili em sua vida?

Lili e a escada

Em meu passado, Lili tem olhar azul. Mais tarde ela me diria que às vezes é cinza, em outras verde, oceânico. Cabelos castanhos com ondas suaves batendo na praia dos ombros. E um corpo rígido estancando todo o movimento. Me parecia que Lili escondia a natureza de passarinho da sua alma. Das moças da colônia alemã esperava-se que fossem trabalhadeiras, retas e pudicas. Sólidas. Como todos que se sabem frágeis, Lili ocultava sua delicadeza para que não a adivinhassem quebrável. Gostei dessa moça sobrevivente desde a primeira vez que a vi. Lili atrás do balcão de livros da Cultural.

Para mim seu cargo era tão importante que não entendia como alguém pudesse aspirar a ser estrela de cinema se existia algo tão melhor como ser chefe da seção de livros da Cultural. Comecei indo lá com minha mãe, aos poucos fui chegando sozinha, pelos cantos. Os livros ficavam numa esquina de labirinto, no fundo mais fundo da livraria. Sentada no chão, eu tinha a fantasia de que me mimetizava às lombadas coloridas. Como um camaleão numa floresta de letras, ninguém me percebia. Lili, sim. Com o cuidado de não expressar nenhuma condescendência (ela sequer parecia me ver), deixava eu ficar lendo por horas livros que jamais compraria. Enrolada em mim mesma entre prateleiras habitadas, eu tinha descoberto meu lugar no mundo.

Aprendi nesse território por desbravar que o princípio não é o verbo, mas o cheiro. Meu primeiro ato era inspirar aquelas folhas virgens, as quais eu seria a primeira a decifrar. Depois eu passava a ponta dos dedos na capa, sentindo a pele e a forma, acariciava as páginas com reverência. Só então lia a primeira palavra, toda arrepiada. Até hoje repito esse ato nas livrarias, causando algum estranhamento. Para mim, os livros sempre foram sagrados, mas apenas para que pudessem ser profanados. Mais tarde eu faria sexo da mesma maneira, ligando os corpos e as letras para sempre na minha apreensão do mundo.

Um dia Lili colocou uma escada. Sem palavras, como era o seu estilo, já que parecia trancá-las todas dentro de si. Lili era só gesto. Movimentos contidos e, de repente, uma subversão. Direta, sem curvas. E de volta ao roteiro de economias. Pude então ascender aos livros mais altos. Era maior do que alcançar a lua. Eu era Neil Armstrong, mas não para fincar nenhuma bandeira. Não era a posse que me interessava. Meu desejo era tocar o chão lunar com meus dedos, primeiro, depois com a palma da mão, suavemente.

Numa manhã, quando eu me preparava para enfiar o nariz numa pilha nova de livros, Lili me promoveu. Nunca soube se porque alguém reclamou daquela guria metida por horas numa dobra das prateleiras ou porque ela de fato acreditava no meu discernimento. Fui incumbida da tarefa de ler os livros recém-lançados pelas editoras para dizer a ela se devia ou não os encomendar. Ganhei o privilégio de levá-los para casa. Me sentava no lugar do meu pai, aproveitando que ele estava na faculdade. E sonhava em usar óculos para a cena ficar completa. Mas logo quis voltar para a livraria, porque nunca gostei de ler por incumbência, como não gosto até hoje. Preferia ser uma passageira clandestina das estantes a uma leitora com crachá.

Quando Lili anunciou que deixaria a livraria, me senti abandonada. Quase traída. As moças que a sucederam não perceberam a importância do seu trabalho, preferiam ser funcionárias. Só Lili sabia que os livros não eram objetos, mas portais. Quando ela se foi, os livros fecharam-se. Viraram mercadorias. Aprendi ali que ninguém é substituível. Alguns se tornam substituíveis ao se deixar reduzir a apertador de parafusos da máquina do mundo. Alienam-se do seu mistério, esquecem-se de que cada um é arranjo único e irrepetível na vastidão do universo. Quando a alma estala fingem não saber de onde vem a dor. Então engolem a última droga da indústria farmacêutica para silenciar suas porções ainda vivas. Teriam mais chance se ousassem se apropriar de sua singularidade. E se tornassem o que são. Para se perder logo adiante e se buscar mais uma vez, já que ser é também a experiência de não ser.

Somos igualmente diferentes, a única desigualdade que nos iguala. A singularidade do que sou, só eu sou. A singularidade do que é você, só você é. O que deixarmos de criar será uma ausência no mundo. Uma existência perdida – ou desperdiçada – faz um rasgo no tecido invisível da história. Essa dimensão da vida humana me engolfou enquanto Lili partia com seu olhar azul.

Muito mais tarde a busca pelo extraordinário contido nas vidas supostamente comuns assinalou minhas andanças de repórter. E um dia virou uma coluna e depois um livro chamado A vida que ninguém vê. Para mim, as notícias habitam os detalhes, às vezes empoeirados, do cotidiano. A maior parte das histórias reais que conto vem dessa grandeza do pequeno, da delicadeza que anima cada vida humana, mesmo nas horas brutas. Sou uma repórter de desacontecimentos desde que Lili desaconteceu na minha vida.

* * *

Lili e eu nos perdemos por décadas. Um dia fui procurada pelo Jornal da Manhã para participar de uma série sobre ijuienses que haviam “vencido” fora da cidade. Minha tarefa era escrever sobre essa aventura pessoal. Aceitei. Mas escrevi um texto no qual dizia que tão difícil quanto partir era permanecer. E contei a história de Lili, a moça alemã que tinha a chave dos mundos.

A página de jornal alcançou Lili numa cidade próxima e ainda menor, algum tempo depois. Ela vivia dias duros. Sua alma de passarinho tinha sido descoberta. Lili parecia ferida, apartada de seu mistério. Não fazia ideia de que havia sido tão essencial na vida de um outro. Nos reencontramos. E meus olhos foram o espelho onde ela, pelo menos por um momento, pôde se enxergar como de fato era, insubstituível.

Pude contar a Lili o que ela também fez de mim. Era eu que agora escrevia livros que passeavam por estantes, descansavam em mesas de cabeceira, ofereciam-se em bibliotecas e aqueciam colos de gente no metrô ou no ônibus. Ela podia me ler porque um dia permitiu que eu lesse numa esquina das prateleiras de uma livraria de cidade pequena. Eu podia escrever porque antes ela havia me lido. Lili tinha asas na alma. E às vezes se esquecia disso. Acredito que só alcançamos o extraordinário do que somos ao sermos capazes de alcançar o extraordinário que é o outro. Entre mim e Lili, foi uma volta completa.

Quando Lili Lohmann me alcançou depois de anos, por um telefonema, numa noite em que eu também me perdia nas horas mortas, ela me disse uma frase que até agora me faz dançar: “Quando eu leio o que você escreve é como se eu ganhasse um presente”. Lili, você é um presente para sempre presente em tudo o que sou.

Brum, Eliane. Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2014 (edição digital do Kindle).

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