Anne with an E (série do Netflix)

(Há poucos spoilers soltos, mas – acredito mesmo – sem prejuízo para quem ainda não viu a série.)

Comecei a assistir a “Anne with an E”, no Netflix, por indicação de meu irmão, que, entusiasmado, saiu falando sobre a beleza da história de uma órfã adotada –  inicialmente por engano – por um casal de irmãos solteiros e idosos. Embora o enredo, a fotografia, o figurino e a excelente atuação dos atores tivessem me cativado desde o início, o que logo me prendeu foi a fala incessante de Anne com um vocabulário requintado e certeiro.

Anne não era o que os dois irmãos idosos queriam. Entretanto, eles se sentem atraídos a abrir mão do garoto que desejavam para trabalhar na fazenda, a fim de ficar com a menina para… Amar! A transformação de Marilla e de Matthew, em decorrência dessa convivência, faz-se delicada e emocionante. Os irmãos, que envelheceram sozinhos devido aos problemas que sofreram (essas questões são mostradas ao longo dos episódios), quase não falam. Vivendo suas vidinhas um dia após o outro, chegam ao extremo de nada dizerem porque não têm o que dizer. A não-palavra verbaliza assim a não-vida que se construiu e se impôs a ambos, sem que se dessem conta. Eles apenas se mantêm na sobrevivência cinza diária. É a Anne que lhes traz vida e lhes ensina a falar; traz-lhes narrativas e lhes mostra a beleza ao redor; traz-lhes alegria e lhes dá ânimo para lutar, continuar e querer viver mais tempo, porque agora têm um motivo real: criar a menina. Anne é a palavra de suas vidas. Anne é o seu verbo de transformação. Será que eles chegam ao ápice de tagarelar?

No contexto geral, a história se passa numa cidadezinha rural do Canadá, no final do século XIX. Apesar de ser uma época determinada – e os acontecimentos, as re(l)ações e as consequências estão presos a esse período -, os temas abordados são atualíssimos e precisam ser pensados e discutidos ainda muito hoje. Sempre que vejo filmes de época, penso a época em si, mas também as heranças que carregamos, boas e más.

A órfã não é facilmente aceita pela comunidade. Afinal, ela carrega o estigma de sua orfandade, que pressupõe um juizo de valor negativo. Se foi abandonada é porque não deve ser coisa boa, não é mesmo? Pois é, nem o pastor tem um olhar caridoso para com ela. Ao contrário. Na primeira aparição pública da menina, ele e todos segregam-na.

Anne não pode ser uma criança como as outras nem pode cometer os erros que qualquer criança cometeria. Para provar que pode ser aceita e amada, ela precisa salvar vidas e apagar verdadeiros incêndios. Isto é, um ser diferente da mediocridade reinante só recebe o direito de ir e vir se realizar atos heroicos que limpem ou apaguem suas marcas, seus carimbos de nascença que o legitimaram previamente como escória. Cada ser ou grupo diferente dos estabelecidos tem de ser liberado por um tribunal inquisitório social. Isso ocorre com Anne (e com outros personagens) em suas relações com todos, de todas as idades. Isso ocorre ainda hoje em nosso meio…

Há, no entanto, uma luz no fim do túnel e a humanidade pode ter salvação. Isso é suavemente representado não só pela transformação de Matthew e Marilla, e também, de certa forma, de Rachel, personagens mais velhos. A salvação da humanidade também está marcada por jovens como Gilbert e Diana, embora minoria. Diana é uma menina de bom coração. Recebe Anne desde o início e gosta dela gratuitamente. O problema são as imposições sociais que ficam cerceando a pura e verdadeira amizade das duas com o tradicional medo de que a órfã “contamine” a linda e bela menina de família, por conseguinte correta e pura (o protótipo da menina que é criada para ser bela, recatada e do lar). Já Gilbert se destaca pela inteligência. É o estudioso da escola. Ele pode ser representado como a metáfora do que o conhecimento possibilita ao ser humano: esclarecimento. A leitura – ampla, variada e profunda – abre os seus olhos, retira os juízos de valor condenatórios por tradição, possibilita um olhar mais crítico de si mesmo e menos cruel sobre os outros. Acho que esses dois e outros que vão sendo contagiados e transformados nos mostram que a humanidade ainda pode se salvar de si mesma. O caminho, porém, é longo e árduo porque outros jovens como Billy e Josie – que não leem e têm seus atos chancelados por iguais – procriam-se e permanecem reproduzindo suas intolerâncias e preconceitos tão arraigados, que não conseguem enxergá-los como tais. Afinal, eles vivem a Norma que aprenderam e lhes mantém numa situação confortável. E, assim, consideram-se normais e os que estão fora disso é que são os anormais… É a eterna reprodução de uma tradição seletiva.

Dessa forma, o mundo gira e a norma (que para esses não é imposição pois é o natural, é a tradição) leva os diferentes para guetos, pois já que os anormais existem, que fiquem o mais distantes da “gente de bem” para não confrontá-los, não importuná-los, não agredi-los com suas vidas e histórias. É por isso, por exemplo, que Diana e seus pais nunca conheceram, de fato, a rica tia Josephine. E nessa familia somente a menina, que tem bom coração, passa a conhecê-la em sua essência. É por isso também que a vida-base do garoto Cole, artista nato, é totalmente desmantelada. Ele não cabe na escola, não cabe em sua casa, não cabe em sua pequena comunidade. Ele é rechaçado pela sociedade que não admite sua natureza feminina. Se ele tem de existir, que seja longe dos olhos das pessoas direitas. E que não tente se impor! Cole precisa fugir para a cidade grande, mas, mesmo lá, só poderá ser o que é entre os seus pares também marginais, assim como aquela rica e amável tia Josephine, que acaba atuando na história como uma grande salvadora dos pobres e oprimidos.

Será que precisaremos ainda de muitas Annes em nossas vidas para nos transformar em seres mais humanos? Ou será que basta abrirmos os livros que já existem debaixo de nossos olhos como Gilbert o fez e sair navegando pelo mundo para descobrir que o outro, qualquer que seja ele, é igual a nós? Faço aqui referência direta à linda relação familiar criada entre Gilbert e Bash, o primeiro negro a entrar no universo de Green Gables. Isso também não pode passar desapercebido aos nossos olhos.

Isso tudo apenas em duas temporadas até o momento (17 episódios). Mas ainda tem muito mais! Como não refletir sobre a terrível estrutura da escola conteudista com um professor, ditador e intolerante, que reproduz o descaso e a rejeição às minorias (por que será?!), ratificando os erros e imposições desumanas daqueles que reafirmam as regras dos estabelecidos e mantêm o seu poder de opressão?

Como não rir do absurdo papel daquelas mulheres que se dizem progressistas, mas que na hora do embate, mantêm um olhar extremamente preconceituoso e arcaico? Lembro agora que é o que a autora nigeriana Chimamanda chama de “Feminismo Leve”, isto é, uma igualdade feminina condicional.

Como não falar das futriqueiras, dos gananciosos, dos soberbos, dos intolerantes…

Só posso dizer uma coisa: vejam e curtam, vejam e mergulhem em suas reflexões, vejam e troquem ideias. Anne with an E vale muito a pena!!! Faço, até, mea culpa por já ter dito algumas vezes que não sou muito fã de séries.

Deixo um agradecimento especial ao meu irmão Aldo, por ter me indicado essa maravilhosa série, e à Flavia Maia Bomfim, boa amiga e colega de trabalho, com quem tenho a oportunidade de conversar, trocar e muito aprender. Ela abriu meus olhos para alguns detalhes bem interessantes do lindo enredo.

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