Teologia da paz

Texto publicado no jornal O Globo, em 16 de outubro de 2017.

No momento em que se definirão os critérios sobre o que se pode ensinar nas aulas de religião, há que se considerar o paradigma ecumênico

 O Supremo Tribunal Federal decidiu que as escolas públicas podem ter ensino confessional, desde que seja vedada qualquer forma de proselitismo. Algumas indagações se impõem: a identidade religiosa deve ser reconhecida nas escolas ou nos ambientes específicos? Pode-se atribuir à escola a garantia da moral religiosa? O Estado é ou não responsável pela diversidade de crenças?
A decisão do STF exige que o MEC e o Conselho Nacional de Educação estabeleçam regras e critérios do que pode ser ensinado em aulas de religião, confessionais ou não. Certamente, os especialistas devem estar conscientes de que as religiões padecem da constante tentação de girar em torno de si mesmas para assegurar o poder de suas instituições e hierarquias. No entanto, também são capazes de fazer valer os máximos valores da humanidade, com uma autoridade distinta dos políticos, juristas e filósofos.
Reconhecemos que todas as religiões apresentam modelos inegociáveis: normas éticas fundamentais e comportamento que se funda no absoluto, que impõe seu valor a milhões de seres humanos. Contudo, é preciso ressaltar que as religiões também padecem da constante tentação — tanto na ética individual, sexual e social quanto na economia e na política — de aliarem-se em alguns rigorismos extremos.

No momento em que se definirão os critérios sobre o que se pode ensinar nas aulas de religião, há que se considerar o paradigma ecumênico: serão necessárias a comunicação e cooperação inter-religiosa. É fundamental o diálogo filosófico-religioso, mais intenso, entre historiadores das religiões que levam a sério o pluralismo religioso e que possam meditar e ensinar sobre a vida e os problemas da espiritualidade do nosso tempo. Através da multilateralidade religiosa poderá haver o entendimento e a compreensão do jovem. Este entenderá, assim, que é necessário renovar-se para a concórdia e exercitar a autocrítica para a tolerância. Na base do programa que deverá ser transmitido, é fundamental que se programem princípios e valores, norteadores de uma teologia de paz que tente alcançar, não através do silenciamento da questão da verdade, mas pelo compromisso em eliminar os conflitos, o terrorismo, tantas vezes causados por interpretações equivocadas dos livros religiosos.

A teologia da paz exige um estudo das questões referentes ao conhecimento da divindade, de seus atributos e relações com o mundo e com os homens, verdadeiramente ecumênica, de relevância ético-política e orientada para o futuro. Os pedagogos que construirão o programa do ensino religioso nas escolas públicas devem ter em vista que a preservação do respeito e da dignidade, como fruto da evolução humana, é vital para garantir o bem-estar dos indivíduos, crentes ou não crentes; que o conceito da ética nos convida à interdependência religiosa, entendendo que todas coexistam e se respeitem, sempre buscando o equilíbrio; que haja a convicção de que não há paz religiosa sem diálogo inter-religioso na pós-modernidade.

Acreditamos no surgimento de uma sociedade “pós-materialista” ou, como apregoa o historiador Robert Fogel em “The Fourth Great Awakening”, a emergência de uma agenda ético-política para o século XXI, na qual o desenvolvimento dos valores espirituais tenham primazia sobre as questões estritamente econômicas. O desafio da felicidade do homem se tornará muito mais uma questão de psicologia do ecumenismo religioso e de ética do que propriamente de economia. O exercício da liberdade religiosa sob a égide da razão e da ética conduzirá à paz e à felicidade. A bondade moral do homem é suscetível de um aprimoramento ilimitado através da união e do ponto de vista das diferentes crenças.

Carlos Alberto Rabaça é sociólogo e professor

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