“Solitária”, Eliana Alves Cruz

Acho que fui com muita sede ao pote. Assim que foi lançado, comprei Solitária e li em poucas horas. A história é boa. Os acontecimentos fictícios são nitidamente baseados numa realidade dura e crua que muitos de nós conhecemos – seja de um lado (Mabel e Eunice) ou de outro (d. Lúcia, sr. Tiago). E alguns episódios (há várias histórias que perpassam a história principal) são também inspirados em eventos ocorridos há bem pouco tempo ou que ainda estão presentes nos jornais. Entretanto, esses acontecimentos, em vez de tornarem a história mais viva e atual, deram ao enredo um caráter muito mais didático e panfletário do que literário. Isso, para mim, fez perder um pouco da magia da narrativa enquanto literatura em si, embora concorde que tudo que ali está precisa ser dito, refletido, encarado e denunciado para ver se as pessoas, principalmente aqueles que se intitulam “homens de bem”, acordam. (Também não sei se minha expectativa é um pouco ingênua e utópica, mas sempre tenho esperança de que podemos acordar e ser melhores.)

Se, porém, o problema da narrativa fosse só esse, até tudo bem. Acho que romances panfletários andam na moda… Mas a estrutura narrativa também me incomodou. Mais precisamente os narradores. Começo pelas duas primeiras narradoras, que me pareceram um pouco fora do lugar que representavam.

Mabel, a personagem principal, nos conta a história por sua perspectiva com lembranças desde quando foi pela primeira vez à casa de d. Lúcia, a patroa de sua mãe. O que ela diz lembrar de seu passado se traduz por meio de palavras difíceis e situações complicadas que ela expressa com facilidade e muita destreza, como se não tivesse acontecido nem ouvido, quando pequenina, em sua infância pobre e de pouco contato com uma realidade comunicativa mais ampla, visto que sua mãe, Eunice, era analfabeta. Não parece estranho? Há uma aparente incompatibilidade entre personagem e narradora e isso me incomodou muito.

Mantendo essa contradição, a segunda narradora, Eunice, aquela mãe analfabeta, narra, também em primeira pessoa, a sua visão da história com vocabulário requintado e gramaticalmente impecável. O mesmo problema se mantém e acho até que se acentua nesse caso, visto que a filha estudou e isso poderia levá-la a escolhas vocabulares posteriores, mas a mãe, não. Nasceu analfabeta e assim permaneceu.

Para fechar a história, Eliana Alves Cruz cria um terceiro narrador. Este deixa de ser uma pessoa real, mas, de origem bem interessante, se personifica e nos conta partes da história por sua perspectiva. Afinal as paredes, o chão, os móveis… os quartinhos têm ouvidos e sentem nossas dores e alegrias e, assim, podem – por que não? – narrar a história daqueles que nesses espaços vivem ou viveram por tanto tempo. O problema aqui é que a personificação de ambientes, seguida de tantas histórias inspiradas em acontecimentos recentes noticiados nos jornais, me pareceu ter nascido por inspiração do terceiro narrador em “O torto arado”, mas, infelizmente, não me pareceu gerar um efeito semelhante. O motivo? O jeito de narrar dos três é igual. A autora não conseguiu diferenciar, na prática da escrita, esses personagens.

Sinto-me péssima em fazer tamanha crítica, mas esses pontos perturbaram bastante o meu envolvimento com a leitura. Embora eu me sinta gratuitamente cativada para ler os livros de Eliane Alves Cruz, acho que a alma da jornalista está sobressaindo muito mais do que a da romancista em suas narrativas. Mas não vou desistir dela. Ainda não li o tão badalado Água de barrela.

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