Desde sempre os “Mamãe Falei” estão entre nós… #elenão

Uma menina com pais e irmãos morrendo de fome, atacados pela febre amarela, epidemia de meados do século XIX no Rio de Janeiro, busca trabalho e pede ajuda em sua rua para comprar remédios e comida para sua família que está à beira da morte. Um vizinho bem mais velho vê aquela situação, a chama em sua casa e lhe dá algumas moedas depois de fazer coisas que ela nem imaginava existir. (“É FÁCIL PORQUE É POBRE?!”) O pai sobrevive e pergunta à filha como tinha conseguido aquele dinheiro. Em sua inocência, a menina conta tudo o que ocorrera e, considerada vagabunda por aquele homem que deveria protegê-la, é expulsa de casa pela vergonha causada. (A VÍTIMA É A CULPADA?!) Assim morre, para os que a conheciam, a jovem Maria da Glória e nasce, em um novo mundo, Lúcia. Os nomes, por sinal, fazem todo sentido. Esta é a história inicial da vida de Lúcia, personagem principal do romance “Lucíola”, do super conservador, escravocrata, “homem de bem”, José de Alencar.

A história se desenrola e aquela menina, transformada em mulher pela sociedade machista e patriarcal, só pode DEIXAR DE SER LÚCIFER (Lúcia) e VOLTAR A TER A GLÓRIA DA PUREZA DE MARIA por meio do amor verdadeiro de outro homem. (CURIOSO O FATO DE O SALVADOR DAQUELA POBRE ALMA TER DE SER UM HOMEM…) Esse amor, porém, para manter a moral e os bons costumes de uma sociedade preconceituosa e hipócrita não pode se manter no campo físico e real. A Maria da Glória precisa vencer a morte para pagar pelos pecados de Lúcia e manter, na imaterialidade da eternidade, o amor espiritual. Enquanto isso, aquele que abusou de uma menor e toda a sociedade hipócrita formada por inúmeros “homens de bem” continuam livres, curtindo a vida e os seus privilégios sociais.

A pergunta que faço é: quando você leu, na escola, alguma das mais famosas obras da prosa romântica brasileira, para conhecer o Romantismo na Literatura, seu/sua professor/a levantou alguma questão que tratasse do absurdo da posição da mulher na sociedade do século XIX? Por acaso ele/a levantou alguma reflexão sobre os preconceitos que reproduzimos ainda hoje, até mesmo sem perceber, e motivou o questionamento sobre sua origem e manutenção?

É preciso ir a essas fontes com muita atenção e audácia, porque é por meio delas que nossos preconceitos foram se naturalizando a ponto de considerarmos, muitas vezes, normais os absurdos e as violências ainda hoje praticadas. Dar nome às violências é o primeiro passo. E nada de cancelamentos! É conhecendo a História e as inúmeras histórias que dela provêm que podemos entender o mundo de onde viemos para escrever o mundo que queremos. E, com certeza, não é com idiotas como este que está no poder.

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