Calibã e a bruxa, Silvia Federici

Antes de qualquer informação, é preciso dizer que Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, da Editora Elefante, tem um projeto gráfico espetacular! É lindo demais esse livro!!! Só por isso já dá uma vontade irresistível de tê-lo e de lê-lo. Dá pra devorar com os olhos.

Com relação ao conteúdo, acho que uma pergunta resume, em linhas gerais, o tema do livro:

Quais foram os lugares destinados às mulheres na transição do feudalismo para o sistema capitalista?

A historiadora italiana Silvia Federici faz, em sua longa pesquisa, um resgate histórico desse período e nos mostra que 1) o capitalismo não foi um produto da evolução do feudalismo, 2) o proletariado travou inúmeras lutas contra o poder feudal e 3) as mulheres foram expoentes nessas batalhas. Esses movimentos queriam igualdade e se opunham bravamente contra o trabalho servil.

Fica claro que a Idade das Trevas não foi uma época tão sem conhecimento como aprendemos na escola (principalmente para as mulheres) e também não foi uma época de misoginia como a que se impõe com o advento do capitalismo. Nós tínhamos, de certo modo, algum domínio sobre nossos corpos, sobre a reprodução e dominávamos, também, as artes de uma medicina natural, baseada em ervas e alimentos, o que nos dava valor e respeito em pé de igualdade com os homens na sociedade da época.

Com a perseguição à curandeira popular, as mulheres foram expropriadas de um patrimônio de saber empírico, relativo a ervas e remédios curativos, que haviam acumulado e transmitido de geração a geração – uma perda que abriu o caminho para uma nova forma de cercamento: o surgimento da medicina profissional, que, apesar de sua pretensões curativas, erigiu uma muralha de conhecimento científico indisputável, inacessível e estranho para as “classes baixas”. (p. 364)

A autora, então, defende a tese de que o status da mulher na sociedade europeia foi modificado para atender interesses da implementação da sociedade capitalista. A construção do imaginário popular sobre as bruxas, portanto, foi intencional e articulado, e isso forjou a divisão sexual do trabalho e a compreensão que ainda hoje reproduzimos do papel do homem e da mulher na sociedade, a partir de um verdadeiro genocídio feminino que se deu nos séculos XVI e XVII.

A caça às bruxas aprofundou a divisão entre mulheres e homens, inculcou nos homens o medo do poder das mulheres e destruiu um universo de práticas, crenças e sujeitos sociais (…) (p. 294)

(…) a caça às bruxas requeria uma vasta organização e administração oficial. Antes que os vizinhos se acusassem entre si ou que comunidades inteiras fossem presas do “pânico” , teve um firme doutrinamento, no qual as autoridades expressaram publicamente sua preocupação com a propagação das bruxas e viajaram de aldeia em aldeia para ensinar as pessoas a reconhecê-las (…) (p. 298)

A caça às bruxas foi também a primeira perseguição, na Europa, que usou propaganda multimídia com o objetivo de gerar uma psicose em massa entre a população. Uma das primeiras tarefas da imprensa foi alertar o público sobre os perigos que as bruxas representavam, por meio de panfletos que publicizavam os julgamentos mais famosos e os detalhes de seus feitos mais atrozes. Para este trabalho, foram recrutados artistas, entre eles o alemão Hans Bandung, a quem devemos alguns dos mais mordazes retratos de bruxas. Mas foram os juristas, os magistrados e os demonólogos, frequentemente encarnados na mesma pessoa, os que mais contribuíram na perseguição: eles sistematizaram os argumentos, responderam aos críticos e aperfeiçoaram a maquinaria legal que, por volta do final do século XVI, deu um formato padronizado, quase burocrático, aos julgamentos, o que explica as semelhanças entre as confissões para além das fronteiras nacionais. (p. 299)

Federici afirma, ainda, que não só as origens do machismo estão interligadas ao surgimento do modelo capitalista da sociedade, a do racismo também.

Para além deste livro, a autora, feminista atuante, fala muito sobre o trabalho doméstico e denuncia já há bastante tempo a invisibilidade do trabalho da mulher. Ela se mantém em plena luta pela remuneração de todo trabalho doméstico feminino.

É uma leitura longa, porém, prazerosa e muito elucidativa. Muitas partes eu, enquanto leitora, preciso ainda de outros conhecimentos de mundo para conseguir aprofundar, mas como um panorama geral da (des)construção do papel da mulher na sociedade ao longo de séculos vale muito.

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