O avesso da pele, Jefferson Tenório

É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos. (p. 61)

Não conhecia Jefferson Tenório. Fiquei interessada em O avesso da pele pela matéria que saiu no Segundo Caderno do Jornal O Globo, no dia 06 de agosto, informando que o livro chegaria às livrarias na segunda-feira seguinte. Comprei e, em duas madrugadas, devorei as 189 páginas.

Com um estilo narrativo próprio, o autor cria um narrador-personagem embebido de sofrimento pela perda repentina e prematura do pai com quem não teve tanta intimidade, mas por quem demonstra grande afeto. O filho reconstrói em sua cabeça a vida paterna como se estivesse juntando as peças de um quebra-cabeças por meio dos objetos que vai encontrando.

Teu caos me comove. Olho para tudo isso e percebo que serão esses objetos que vão me ajudar a narrar o que você era antes de partir. Os mesmos utensílios que te derrotaram e que agora me contam sobre você. Os objetos serão o teu fantasma a me visitar. (p. 14)

Pedro, em primeira pessoa, fala todo o tempo com Henrique, dirigindo-se intensivamente a ele pelo pronome de tratamento “você”. E por meio deste monólogo, conhecemos as dores e dissabores de uma pessoa que se constitui em uma sociedade desigual, preconceituosa, racista, cega e individualista.

Quando ele diz isso, você lembra que um dia já tinha sido algemado como um bandido. Isso aos catorze anos, quando você estava num ponto esperando o ônibus, em Copacabana, para ir encontrar seu padrasto. Foi então que um ônibus parou e dele desceram alguns moleques que apontavam para você dizendo: ‘foi ele, foi ele’. Você não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo, e num impulso decidiu correr e, ao olhar para trás, viu um monte de gente correndo atrás de você. (p. 17-18)

Em total verossimilhança com a sociedade em que vivemos (isso não é spoiler porque o livro já começa com esse conhecimento), o professor, profissão tão desvalorizada, é assassinado por policiais como tantos outros homens negros , sem chance alguma de reivindicar sua inocência. Sua cor o condena. Seu andar corrobora. Sua não reação de submissão potencializa a criminalidade como registro de nascença pelo “defeito de cor”. Aliás, ontem (12/08/2020) vimos bem essa questão denunciada nas redes sociais por uma advogada. Ela mostrou que uma juíza de Curitiba escreveu na sentença que um homem negro integrava uma organização criminosa “em razão de sua raça”. Não há adjetivo que qualifique tamanho absurdo e preconceito. É racismo!

Gostei muito do estilo de Jefferson Tenório. Amei as escolhas lexicais e as construções frasais que ele faz. Seu estilo é poético. Mas também estranhei uma coisa. Algumas partes me pareceram interrupções da narrativa para ensinar sobre o racismo, como se fosse uma aula intencional. Seguindo a leitura, porém, acabei percebendo que no conjunto da obra havia 90% de lirismo e só uns 10% de didatismo. Nada mal para um escritor que é professor. E talvez ele esteja certíssimo e eu, a enganada. Determinadas informações estão precisando ser explicitadas. Não dá mais para ficar numa pseudo cordialidade como sinônimo de boa convivência…

E já que falei do autor enquanto professor, em se tratando desta minha linda profissão, senti no meu íntimo o sofrimento de Henrique que, sempre desejoso de fazer o melhor por seus alunos[1], se cobra demais e acaba só enxergando suas falhas e defeitos, mas o que fica claro é que esse sofrido professor faz um lindo e revolucionário trabalho. Ele é freiriano na prática. Paulo Freire na veia! O que lemos da sua sala de aula a partir da página 162 é transformador. Parafraseando bell hooks: é preciso transgredir! Fiquei imaginando os olhinhos dos alunos descobrindo a obra de Dostoievski. Pois é, Dostoievski para alunos do EJA!!! Henrique, com certeza, fazia a diferença, por mais que não enxergasse isso. Descobrimos esta potência já na primeira página:

Até o fim você acreditou que os livros poderiam fazer algo pelas pessoas. (p. 13)

E continuou até o fim sonhando…

Agora você planejava levar Kafka, Cervantes, James Baldwin, Virginia Woolf e Toni Morrison para eles. Depois daquela noite tudo era possível. (p. 176)

Mas… uma morte ratificadora do genocídio negro que vivemos interrompe a transformação desses jovens, pois ninguém, ninguém é substituível, por mais que nos substituam como notas gastas e devolvidas à Casa da Moeda para serem incineradas.

Leitura mais do que necessária! Acabei de ouvir numa live que o autor diz que seu livro é uma reivindicação de afeto. Amei! É isso!

TENÓRIO, Jefferson. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

[1] Característica que sempre vi sobressair em mim e em todos os meus colegas por mais que soframos e sejamos desmoralizados socialmente, pois professor de verdade tem um valor de responsabilidade e amor pelo ensino que vai além da compreensão.

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