Pele negra, máscaras brancas, de Frantz Fanon

Quando me amam, dizem que o fazem apesar da minha cor. Quando me detestam, acrescentam que não é pela minha cor… Aqui ou ali, sou prisioneiro do círculo infernal. (p. 109)

Defendemos, de uma vez por todas, o seguinte princípio: uma sociedade é racista ou não o é. Enquanto não compreendermos essa evidência, deixaremos de lado muitos problemas. (p. 85)

Depois de inúmeras discussões infrutíferas com conhecidos ou familiares e a opção de não mais publicar nada em redes sociais como FB ou Instagram, coloquei em minha agenda um alarme que toca (anuncia), em dias alternados para me surpreender, a expressão “agir, não reagir”.

Por que estou falando isso no início da breve resenha de Pele negra, máscaras brancas, do filósofo e psicanalista Frantz Fanon?

Simplesmente porque se tivesse de resumir, em poucas palavras, o que tirei de essencial do livro de Fanon diria que o negro tem de agir, não reagir. Em outras palavras, a meu ver Fanon em toda a sua análise psicanalítica mostra que quem reage (no caso o negro) está submetido àquele contra quem vai a reação (o branco, o Outro). Ao contrário, quem age demonstra independência. Veja: não digo superioridade, mas in-de-pen-dên-cia. Afinal, Frantz Fanon deseja, com seu trabalho e sua análise psicanalítica, alforriar a si mesmo e a todos os negros da alucinação criada e transformada, deliberadamente, em realidade pelos brancos colonizadores e (ainda hoje) perpetuada nas entranhas da coletividade por meio de uma “imposição cultural irrefletida” (p. 162).

Segundo o autor,

Enquanto psicanalista, devo ajudar meu cliente a conscientizar seu inconsciente, a não mais tentar um embranquecimento alucinatório, mas sim a agir no sentido de uma mudança das estruturas sociais.
Em outras palavras, o negro não deve mais ser colocado diante deste dilema: branquear ou desaparecer, ele deve poder tomar consciência de uma nova possibilidade de existir: ou ainda, se a sociedade lhe cria dificuldades por causa de sua cor, se encontro em seus sonhos a expressão de um desejo inconsciente de mudar de cor, meu objetivo não será dissuadi-lo, aconselhando-o a “manter as distâncias”; ao contrário, meu objetivo será, uma vez esclarecidas as causas , torná-lo capaz de escolher a ação (ou a passividade) a respeito da verdadeira origem do conflito, isto é, as estruturas sociais. (p. 95-96)

O livro traz exemplos, questões e experiências que corroboram a necessidade – a urgência – de rever as bases constituintes do imaginário social, para reescrever-se e não mais sujeitar-se a essa inferiorização.

A inferiorização é o correlato nativo da superiorização europeia. Precisamos ter a coragem de dizer: é o racista que cria o inferiorizado.
Com essa conclusão, aproximamo-nos de Sartre: “O judeu é um homem que os outros homens consideram judeu: eis a verdade simples de onde se deve partir… É o anti-semita que faz o judeu”. (p. 90)

Importante leitura para entendermos as complexidades das questões raciais e o quanto isso destrói, mata os seres em sua essência. É preciso reconhecer o custo para a saúde mental e física de homens, de mulheres e de crianças que foram e ainda são subjugados por um racismo que se mantém nas estruturas fundantes de nossa sociedade.

Continuo aqui, em eterna aprendizagem, tentando entender um pouquinho o mundo em que vivo e me humanizar mais para lutar contra tamanha desigualdade, tantos preconceitos, tanta maldade. Por favor, me corrijam se tiver cometido alguma impropriedade na análise.

Ah! Minha primeira tentativa de resenhar este livro deu nesta publicação aqui. Neste momento, estou sendo arrebatada por Ana Maria Gonçalves (leio mais de um livro por vez) em seu Um defeito de cor. Nossa! Que livro!!! Acho que vou sair desta pandemia com um olhar para o mundo muito mais ampliado e modificado.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

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