O incolor Tsukuru Tasaki e seus anos de peregrinação, Haruki Murakami

– Mas você não tem mais um lugar para onde voltar? Um lugar que, para você, é íntimo e que se harmoniza de forma ordenada?
Ele pensou a respeito, apesar de não haver necessidade. – Não existe mais, disse em voz tranquila. (p. 30)

A trama, muito bem desenhada e arquitetada por Haruki Murakami como o grande emaranhado de linhas ferroviárias do Japão, nos faz seguir, quase que num thriller, desejando desvendar uma história secreta. Uso o termo “thriller”, aqui, de propósito, pois o andamento da narrativa contém algo que me parece bem paradoxal. Há um suspense por trás de tudo, mas a narrativa se constrói na lentidão da vida comedida do personagem principal, sem ser, hora alguma, entediante. Aliás, fica bem longe disso. Eu não conseguia parar de ler o livro, querendo descobrir logo o que estava por vir. As angústias, os medos e o desassossego interior de Tsukuru são intensos, o que torna tudo bem dinâmico, com uma narrativa arrebatadora.

É um livro que trata da depressão e da solidão sem ser deprimente ou baixo-astral. Ao contrário! O narrador em terceira pessoa – quase que totalmente onisciente (em alguns rápidos momentos parece que ele mesmo planta uma pequena dúvida sobre isso) – leva-nos, por uma rede de suspense, a um caminho de investigação externa para perscrutar, com bastante calma, o que realmente existe bem lá dentro.

Sem poder falar muito para não dar spoiler, a base da narrativa se desenrola a partir do uso de metáforas criativas, como a simbologia das cores. Vermelho, azul, preto, branco e… o incolor, claro. Aliás, o Cinza (uma cor aparentemente discreta e, até mesmo, sem graça) também aparece para dar o tom enigmático da história. Será que o verde vai trazer – ou pode trazer – a esperança de dias melhores?!

A verdade é que Haruki nos faz refletir sobre o que somos e o que construímos e/ou destruímos em nós a partir dos relacionamentos que temos com os que conosco convivem. O tema pertencimento é caríssimo ao ser humano na atualidade. E Tsukuru Tazaki está só, no meio de uma multidão.

Algo que mexeu muito comigo foi a referência musical. Resolvi seguir a leitura ouvindo cada música, músico ou intérprete mencionado. Foi realmente uma experiência a mais.

Nesse livro, vários temas não nucleares aparecem e chamam a atenção de leitores atentos. Dentre eles, destaco a solidão da homossexualidade; a hipocrisia diante disso por causa do preconceito vivo na sociedade; a alienação das pessoas para se dobrarem às regras e exigências do mercado de trabalho massificante; a superficialidade nas relações e o descarte das pessoas; o papel da mulher, ainda hoje, na sociedade.

Seria maravilhoso desenvolver cada um deles e, principalmente, aprofundar a análise das cores dos personagens e do colorido necessário na vida de cada um, mas seria impossível fazer isso sem abrir coisas da história que valem ser descobertas e decifradas por quem ler o livro..

Vale a leitura! Este é o meu segundo livro deste autor.

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