Pedagogia da autonomia, Paulo Freire

Paulo Freire fala por si mesmo. Não preciso resenhá-lo. Transcrevo abaixo dois trechos deste livro que foi sua última publicação antes de morrer. Trechos esses que, como professora, aproprio-me e faço a concordância comigo, no gênero feminino. Depois de 24 anos de magistério e enfrentando uma censura que só conhecia pelos livros, leio em voz alta estas palavras e as tomo como minhas. Meus princípios. Minha ética.

Não posso ser professora se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo. Não posso ser professora a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê. Não posso ser professora a favor simplesmente do homem ou da humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa. Sou professora a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda. Sou professora a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais. Sou professora contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura. Sou professora a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professora contra o desengano que me consome e imobiliza. Sou professora a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste. Boniteza que se esvai de minha prática se, cheia de mim mesma, arrogante e desdenhosa dos alunos, não canso de me admirar.

Assim como não posso ser professora sem me achar capacitada para ensinar certo e bem os conteúdos de minha disciplina, não posso, por outro lado, reduzir minha prática docente ao puro ensino daqueles conteúdos. Esse é um momento apenas de minha atividade pedagógica. Tão importante quanto ele, o ensino dos conteúdos, é o meu testemunho ético ao ensiná-los. É a decência com que o faço. É a preparação científica revelada sem arrogância, pelo contrário, com humildade. É o respeito jamais negado ao educando, a seu “saber de experiência feito” que busco superar com ele. Tão importante quanto o ensino dos conteúdos é a minha coerência na classe. A coerência entre o que digo, o que escrevo e o que faço. (p. 100 e 101 – adaptado a enunciador de gênero feminino)

Enfim, para os que não o leram e, como macacos de imitação, gritam que o odeiam; para os que o leram e o temem, por isso o destratam; para os que o leram e não o entenderam, por isso dizem não gostar dele e, enfim, para os que o leram e discordam dele, com todo o direito de discordar. Fecho com a não neutralidade que me cabe porque sou gente e estou viva, logo penso, vejo, sinto e faço escolhas.

É por isso que devo lutar sem cansaço. Lutar pelo direito que tenho de ser respeitado e pelo dever que tenho de reagir a que me destratem. Lutar pelo direito que você, que me lê, professora ou aluna, tem de ser você mesma e nunca, jamais lutar por essa coisa impossível, acinzentada e insossa, que é a neutralidade. Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? ‘Lavar as mãos’ em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele. Como posso ser neutro diante da situação, não importa qual seja ela, em que o corpo das mulheres e dos homens vira puro objeto de espoliação e de descaso? (p. 109)

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 62a ed. – Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2019.

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