Por que fazer listas?

Tenho pensado na minha atual necessidade de fazer listas de filmes e peças a que assisti, de livros que li ao longo do ano, de lugares aonde fui…

Quando adolescente, na época daquelas velhas agendas bonitas, eu já gostava de anotar o que fazia, via, lia, mas isso se dava na folha do dia específico, só para recordar a experiência. Hoje, porém, escrevo, cada vez mais, listas. Umas abandono, como a dos vinhos que bebi, para lembrar os de que gostei e adoraria repetir. Acaba faltando tempo para anotar tudo e nem de longe quero criar uma vida “listada”. Estou, porém, escrevendo isto aqui porque alguns acontecimentos nos últimos dias me fizeram pensar nesta minha necessidade. Fim e início de ano dão nisso!

Primeiro, ouvi, ao acaso, duas senhoras na rua conversando sobre uma novela da Globo. Depois vi amigos em grupo de Whatsapp trocando referências sobre filmes e séries e, por último, ontem, quando fui comprar um sofá, a vendedora me mostrou uma poltrona que está sendo muito vendida por fazer parte do cenário de uma novela também da rede Globo.

As referências às novelas da Globo, para mim, são uma grande marca. Eu não vejo TV aberta há anos; não tenho mais noção alguma do que passa nela, quais são os atores que estão em voga, quais as propagandas nem qual a programação de nenhuma rede. Já fui, no entanto, fã de carteirinha e sei bem que as novelas construíam (constroem ainda para as senhoras que assistem a elas?!) uma rede de conversas sobre a narrativa em si e sobre tudo o que gira ao redor disso, desde a produção até a vida pessoal dos atores. Era assunto em comum. Marcava. Da mesma forma, tudo o que se passava na telinha, desde o noticiário até as propagandas, era comum à maioria, o que mantinha em evidência assuntos e temas que, por esse motivo, eram facilmente lembrados. Não havia, assim, uma necessidade real de listar as novelas, por exemplo. Elas passavam meses sendo gravadas em nossa memória (mesmo que depois que começasse outra esquecêssemos o nome da anterior) e nos davam muito material para uma mesa de bar. Quem nunca discutiu sobre Odete Roitman, Sinhozinho Malta, a gêmea má de Mulheres de Areia, a viúva Porcina, Avenida Brasil?!

Hoje, porém, é bem diferente. Enquanto eu assisti neste fim de semana à 3a temporada da série Anne with an E e iniciei Messiah, um amigo me falou que está vendo Drácula, outra amiga está terminando a 15a temporada de Grays Anatomy (nunca assisti, embora meu marido tenha visto tudo e esteja esperando a 16a). Em grupos de Whastapp falaram de Chernobyl, The Crown, O homem do Castelo Alto… Isso sem citar os filmes. São muitas opções! Cada um trilha o percurso que quer, aonde quer (Netflix, Amazon Prime, GloboPlay, Google Filmes, cinema etc.); cada um assiste ao que lhe chama atenção, de acordo com os seus próprios interesses. Só o que é comum à maioria é a quantidade de possibilidades de distribuição digital e o acesso cada vez mais fácil a essa extensa programação. Li que em 2019 foram lançadas 500 séries. 500!!! Como podemos ver algo realmente em um mesmo período como ocorriam com as novelas?! Nem eu e meu marido (duas pessoas que vivem há quase 30 anos na mesma casa) nos acertamos nisso.

Com essa prodigiosa fartura, a construção de listas – para quem gosta de lembrar os nomes dos filmes, séries etc., mas não tem memória igualmente prodigiosa – se torna fundamental. Sou adepta delas e, mesmo assim, minha memória me prega muitas peças. Por mais que não seja movida a quantidade, mas, ao contrário, a qualidade, a experiências e a fruição, a vida hoje realmente mudou. Há muito mais oportunidades e possibilidades – que nos permitem viver distintas experiências em menor espaço de tempo – nos alimentando. Isso acaba gerando, também, algumas incongruências. Temos muito sobre o que falar, mas não necessariamente com quem trocar com mais propriedade, profundidade, pelo simples fato de cada um estar no seu quadrado de interesses. Mais um assunto sobre o qual temos de pensar… Com urgência!

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