Educar com amor e liberdade: ensaios sobre maternidade, paternidade e política, livro org. pela Associação Mães e Pais pela democracia

Esta triste história transcrita abaixo é verídica. Foi contada por Priscila Guerra, mãe da Júlia, nas redes sociais em 2018 e, agora, no livro Educar com amor e liberdade: ensaios sobre maternidade, paternidade e política, organizado pela “Associação Mães e Pais pela democracia”. Como estamos em tempo de Natal, de reflexões e propostas de renovação, resolvi compartilhá-la já que também vivemos tempos tão sombrios, de negacionismo e de desprezo pelas dores e cruas realidades que, muitas vezes, desconhecemos.

Negar o racismo, menosprezar a luta e a história de pretos e pardos em nosso país é menosprezar e perpetuar as dores e dissabores de homens, mulheres e crianças inocentes como a Júlia. Só para lembrar àqueles que se dizem cristãos, o 5o mandamento da lei de Deus não trata apenas da morte física, mas também da morte psicológica, moral, social.

Ao ler, não fique apenas na dor da emoção momentânea. Sejamos, acima de tudo, antirracistas.

Sob a luz dos teus cachos
Priscila Guerra

Desde que me tornei mãe de Júlia, eu soube que o racismo passaria a fazer parte das nossas vidas. Só não pensei que seria tão cedo.

Um dia, aos três anos, enquanto eu desembaraçava seus cabelos e comentava o quanto gostava de fazer aquilo, ela perguntou:

– Mãe, eu sou loira?
– Não, filha.
– E tu?
– Também não.

Pensei que talvez ela não soubesse o que significava cabelo loiro. Perguntei. Ela respondeu: é o cabelo brilhante.

Meu coração de mãe já estava acelerado. Acelerado de medo – eu não estou preparada pra isso. De culpa – eu não ofereço referências adequadas pra ela. De raiva – o que aconteceu pra gerar essa conversa? Mas era só o começo. Eu respirei fundo e segui.

– O teu cabelo brilha, filha. O meu cabelo brilha. Mas nós não somos loiras. Loiras são as pessoas que tem o cabelo amarelo.
– Dá pra tirar todo o meu cabelo e colocar um cabelo loiro?

Meu coração só não parou de bater porque eu precisei de horas pra juntar todas as peças de um quebra-cabeça formado por várias pequenas conversas desconexas e, finalmente, entender que ela já tem problemas de aceitação por conta do racismo.

Tenho certeza de que nenhuma pessoa negra que ouvisse minha filha demoraria tanto pra entender. Júlia já tinha me perguntado, dias antes, se eu podia alisar o cabelo dela e eu tinha pensado “não, ela não falou isso”. Ou, no máximo: “ela vê meu cabelo e quer igual”. Porque, nós, pessoas brancas legais, simplesmente fingimos que racismo não existe.

A verdade é que eu não fazia ideia do que era racismo. Eu não fazia ideia de como ela seria olhada cada vez que vai a um shopping. Nem de que ela seria assediada em tantas festas de aniversário. De que uma turista estrangeira pediria pra tirar fotos com ela, como se fosse um ser exótico. Não imaginava qual seria a sensação de entrar em uma loja de brinquedos com minha filha negra e encontrar uma parede inteira, enorme, repleta de bonecas brancas – e arrastá-la pro outro lado da loja, tentando impedi-la de ver. Eu não fazia a menor ideia da raiva que eu sentiria dos programas infantis e de sua quase totalidade de personagens brancos. E de como eu procuraria desesperadamente personagens com cabelo afro – pra finalmente sentir (porque sentir é muito mais do que entender) como representatividade importa. Eu não fazia a menor ideia de que as outras crianças iriam querer tocar no cabelo dela o tempo todo, mesmo com ela demonstrando desconforto, e de que tão cedo ela teria que aprender a impor limites. E passava a anos-luz de mim a ideia de que alguma criança não iria querer brincar com ela por ser negra.

Eu, na minha fantasia de mãe – e de mulher branca, eu sei – acreditava que eu encheria o reservatório de amor da minha filha até transbordar e, com isso, eu a protegeria. Pensei que ela se olharia no espelho e veria o que eu vejo: a menina mais linda, inteligente e divertida que eu conheço. Mas o mundo passa o tempo todo dizendo a ela o contrário. Que força uma mãe e um pai tem diante de todo o resto?

Por dois dias chorei. Abracei a Ju bem apertado, querendo tirar a dor dela e trazer pra mim. Mas não é sobre mim. Porque eu nunca vou ser alvo daquele olhar. Eu dificilmente vou ser a única pessoa da minha cor em uma festa. Eu nunca vou prender meu cabelo querendo soltá-lo e eu jamais fiquei de fora de uma brincadeira por causa da cor da minha pele. A minha dor é imensa. Sinto uma raiva que eu não conhecia, uma sensação de impotência misturada a uma urgência de mudar o mundo. Mas a dor que a Júlia sente eu nunca saberei como é.
Eu tento ensinar meus filhos a serem gentis. Agora entendo que preciso ensinar minha filha a ser forte. Júlia é mulher. É negra. E o mundo não é nada gentil com mulheres negras.

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