O mundo se despedaça e As alegrias da maternidade, Achebe e Emecheta

Ler O mundo se despedaça, de Chinua Achebe, logo depois de ter lido As alegrias da maternidade, de Buchi Emecheta, me permitiu construir uma visão geral, que até o momento não tinha, sobre a cultura Ibo.

Num primeiro momento, foquei no papel social da mulher em oposição ao do homem nessa sociedade, principalmente porque pude experimentar de forma diferente as relações pela visão de uma autora (Buchi) e de um autor (Chinua). Em ambas as histórias, a função da mulher está ligada aos cuidados da casa, dos filhos, do marido, da roça menor e da necessidade de procriar, acima de tudo, filhos homens, filhos estes que sempre serão do pai, nunca da mãe. Buchi, entretanto, apresenta uma mulher que, embora submissa ao homem (pai ou marido) pela lei de seu povo, tem força suficiente para enfrentar um mundo adverso e sobreviver a ele, mesmo que se encontre sozinha nas adversidades da vida. Chinua, por sua vez, pelo olhar masculino, sempre apresenta a mulher como a parte fraca e inferior da sociedade. Em diversas situações ele faz menção ao jeito mulher de ser quando um homem não age como guerreiro e diz que a sua filha, a mais próxima a ele, “deveria ter nascido menino” (ACHEBE, 2019 p. 83). Até mesmo a distinção de um crime, que para nós seria caracterizado como culposo ou doloso, se distingue como masculino ou feminino:

O crime podia ser de dois tipos, masculino ou feminino. O que * cometera era feminino, porque fora por acaso.

(ACHEBE, 2019, p. 143, *omiti a personagem para não dar spoiler)

O homem branco também é apresentado nas duas histórias. Emecheta mostra-o já instalado e explorando, em Lagos, o trabalho braçal e de baixíssima remuneração dos nigerianos, que vão largando suas roças e se mudando para a cidade, iludidos com a promessa de enriquecimento. Já Chinua Achebe nos apresenta o processo de colonização inicial, com clara denúncia dos abusos gerados, e o uso que se faz da religião para destrinchar as raízes culturais e familiares ancestrais daquele povo. Tenho de dizer que isso me deixou bem incomodada e emocionada.

O homem branco é muito esperto. Chegou calma e pacificamente com sua religião. Nós achamos graça nas bobagens deles e permitimos que ficasse em nossa terra. Agora ele conquistou até nossos irmãos, e nosso clã já não pode atuar como tal. Ele cortou com uma faca o que nos mantinha unidos, e nós nos despedaçamos.

(ACHEBE, 2019, p. 198)

E a todo instante me lembrava de uma cena da série “The Crown”, no Netflix, que mostra a visita de Elizabeth, sem ainda ser rainha, e seu marido o príncipe Filipe a países colonizados pela Inglaterra. Em um país da África, não me recordo agora qual, o príncipe Filipe mexe no cocar de uma das maiores autoridades de um clã local, como se fosse um enfeite meramente exótico, e ri, em sua total ignorância e desrespeito para com a cultura alheia.

O processo de colonização em Achebe se dá em duas partes que eu chamaria de conversão/ilusão e poder/repressão. A justiça passa a existir segundo os princípios das leis do homem branco. Não há uma troca, uma contrapartida para entendimento da cultura local. Ela é inferior, eles são inferiores e “ponto final”. Não há o que discutir. E, em sua arrogância, nada aprende sobre os valores tão fortes de família, união e respeito mútuo que os Ibos poderiam ensinar:

O homem que convida os parentes para uma festa não o faz com a intenção de evitar que eles morram de fome, pois todos têm comida em suas casas. Sempre que nos reunimos no parque enluarado da aldeia, não é para ver a lua, pois todos podem vê-la de seu próprio ‘compound’. Nós nos reunimos porque é bom que as famílias o façam. Vocês hão de querer saber por que estou dizendo isso. (…) Uma religião abominável instalou-se entre vocês. De acordo com essa religião, um homem pode abandonar o pai e os irmãos. Pode blasfemar contra os deuses de seus pais e contra os antepassados, como se fosse um cachorro de caça que de repente ficasse louco e se voltasse contra o dono. Temo por vocês e pelo nosso clã.

(ACHEBE, 2019, p. 189)

Três julgamentos me chamaram atenção nas duas obras. Em As alegrias da maternidade, o tribunal exclusivamente branco não leva em consideração os valores hierárquicos na relação entre homem e mulher no casamento na cultura alheia e deturpa todas as palavras de Nnu Ego sobre seu marido Nnaife.

Chinua Achebe, talvez até para que comparemos ao longo de sua narrativa, nos mostra, na primeira parte da obra, um dia de julgamento na aldeia Ibo (capítulo 10) e, depois, já na terceira e última parte, a imposição das leis brancas sobre os líderes desse grupo.

Achebe consegue trazer a relação homem branco versus homem negro, no processo de colonização, pelo viés do explorado, do derrotado, do destituído de suas terras, de sua cultura e de seus direitos. Esse homem negro é subjugado e perde sua autonomia pelo poder agressivo da coroa e da igreja dos brancos. A história a gente já conhece bem. A perspectiva é que muda e é justamente o de que estamos precisando: mudar os pontos de vista dos quais partimos e ver as diversas vistas de outros pontos.

Duas leituras imperdíveis! O livro de Chinua Achebe é de 1958 e o de Buchi Emecheta, de 1979, mas ambos demoraram bastante a chegar para nós, brasileiros.

ACHEBE, Chinua. O mundo se despedaça. 1a ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

EMECHETA, Buchi. As alegrias da maternidade. 2a ed., Porto Alegre: Dublinense, 2018.

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