Uma cadeira na biblioteca – Revista #451

A crônica abaixo foi publicada na Revista #451, a melhor assinatura que fiz nos últimos tempos. Super indico! É da escritora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida.

Uma cadeira na biblioteca

Como é possível amar um autor que não aceitaria sentar-se à nossa mesa, que se espantaria ao perceber que sabemos ler e escrever e que nos consideraria inferiores? Não deveria eu rejeitar todos os livros do meu passado só por essa razão? Mas, como desalojar um livro da nossa vida? Seria fácil se coibir-me de ler garantisse essa purga. Depois de adoecidos pelos livros, como havemos de curar-nos?

Regresso à distância aos anos omnívoros em que lia livremente, saltando de livro em livro como de pedra em pedra. Porque nunca me perguntei quem era toda aquela gente? Será que me estragaram de uma forma que desconheço? Talvez não quisesse saber de onde vinham os autores dos livros que ia fazendo meus como não me perguntava então de onde vim. Terá mudado alguma coisa, agora que procuro respostas? Ganhei braços, pernas, chapéus emprestados; parte do corpo e da indumentária do leitor é feito daquilo que leu. Se quisesse abastardar membros dessa família, acabaria usando as palavras que aprendi nos seus livros.

Não bastaria queimar os volumes de todos quantos, no passado, subjugaram, calaram, compactuaram e que fui lendo ora com espanto, ora com ignorância. Seria preciso queimar aquilo que o fogo não queima, chegar aonde o fogo não chega, onde o fogo dos livros já deixou uma queimadura.

E, no entanto, ao folhear páginas escritas em épocas em que nem me seria autorizado manusear um livro devido à cor da minha pele e à minha condição de mulher, pergunto-me que lugar da casa ocuparia eu nas casas de tantos dos meus autores, e se não será indigno amar os seus livros, tendo em conta que não se misturariam comigo. Não será indigno misturar-me com eles, sujarei as mãos?

Penso no que seria fazer uma purga, no que significa essa sujidade. A sujidade é condição dos livros. A única purga é ir lendo: um livro lava o outro, mancha o outro. Purgar-me da sujidade seria purgar-me dessa mulher. Seria preciso renascer. E constato que apenas a leitura purga a leitura, apenas livros lavam livros.

Resta lançar-me a outras geografias, outras vozes, regressar a lugares aonde nunca fui, tentar ver o mundo através de mais e mais olhos, mais e mais bocas, quem sabe também eles sujos. Não tenho como não me cingir a esperar que novos livros sujos convivam com antigos livros sujos e outras palavras convivam com as primeiras, as transformem, as transfigurem, as alarguem a ponto de encontrar uma cadeira na biblioteca entre amigos, inimigos, escravos e senhores, carrascos e perseguidos.

Podemos tentar não nos envergonhar do nosso caminho de leitores, em virtude do aspecto do nosso presente. O presente é, ainda, movimento. A vergonha tem de ficar à porta da biblioteca até quando decidimos não voltar a certas estantes. Perceber o lugar que eu ocuparia na casa de muitos dos meus autores depende de, em muitos casos, não ter forma de expulsá-los da minha casa. São como visitas que não se querem ir embora e que, no fim da noite, nos apercebemos tratarem-se de assombrações. Seria mais simples se o leitor se conseguisse proteger à sua vontade.

Resta desejar ser assombrado, deixar que os livros nos transmitam sua doença, de que ninguém nos poderá livrar, aquela que o fogo não cura porque não chega lá. Mas tal também implica que o leitor não dispõe da água para apagar o fogo dos livros: aqueles que ama, aqueles que lamenta ter lido, aqueles que preferia esquecer e todos os outros, que ainda não leu.

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