“A vida invisível” (filme) das mulheres: ontem e hoje

Se você é como meu marido que acha que cinema é puro entretenimento, vai sair da sessão de A vida invisível meio cansado. O filme tem uma narrativa bem lenta. Isso não significa, porém, que não seja boa. Ao contrário!

Se você é daqueles que adoram refletir sobre o que veem e conseguem ler o significado de detalhes, vai perceber que a forma como a história é contada tem tudo a ver com o tema explorado.

Eu amei!

Pensemos sobre a lentidão da narrativa. Adoro extrapolar! Vou viajar, ok?

No livro bíblico do Apocalipse, há uma passagem em que vemos que Deus prefere os quentes ou frios e que os mornos serão vomitados.

Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te.” (Apoc 3, 16)

Essa mornidão está muito bem representada na lentidão da narrativa e ela é assim por um motivo óbvio: a vida das mulheres nos anos 1950 (época retratada na história) só pode ser morna porque é assim que os homens querem e impõem a elas, por vias diretas ou indiretamente em suas escolhas e ações.

A partir daqui há spoiler.

O filme nos mostra a triste história de duas irmãs, Eurídice e Guida, que se perdem geogragicamente e passam a vida sonhando não só com um possível reencontro, mas também com a vida que a outra estaria levando, na imaginação de cada uma muito melhor que a realidade que vivem. É triste constatar, porém, que as vidas que elas sonharam – “frias” ou “quentes”, não faço juízo de valor aqui – foram duramente impedidas, simplesmente, por serem mulheres e não terem, por isso, o direito de sonhar e de serem livres para fazerem o que desejam, como os homens sonham e fazem. As mulheres só podem ser – dentro dos padrões morais e da dita boa família – mornas, invisíveis. INFELIZES. Ou podem (devem?!) se contentar (ou se iludir) apenas com a limitada felicidade permitida a elas: casar, ter filhos, cuidar da casa, dos filhos e do marido. Uma vida apaticamente cor de rosa, pois nem rosa choque pode ser.

Duas vidas, duas histórias, mas representam várias vidas ou mesmo uma só, porque ambas também se complementam naquilo que poderiam ser se fossem inteiras. A personagem Guida, tendo sonhado com o amor romântico, é abandonada pelo homem que a ilude e pelo pai que não a perdoa e a abandona grávida, deixando-a à mercê de uma sociedade machista e preconceituosa. Esse pai é bem aquele que uma sociedade conservadora tanto valoriza. Ele abandona a filha na sarjeta por causa de… valores e moralismos!

Eurídice, por sua vez, com grande potencial para uma carreira promissora como pianista, casa-se e se submete a um homem oficial rapidamente, para não correr o risco de “envergonhar” também a família perfeita para os padrões hipócritas que a sociedade adora (e tanto está voltando a enaltecer hoje). É, porém, esse marido ideal para uma moça de família que ensina a sua mulher, logo na noite de núpcias, a se deixar estuprar por ele. Afinal, é um direito legítimo do marido deitar, ao seu jeito, com a mulher a quem ele deu seu nome e em quem ele fará filhos para manter a sua posteridade.

E assim seguem duas vidas promissoramente quentes (escolho este adjetivo agora só porque me parece mais aconchegante) que recebem um balde de água gelada social e se tornam mornas, medíocres. A sociedade as vomita, porque elas não merecem visibilidade alguma. Simplesmente porque nasceram mulheres. Só cabe a elas serem “belas, recatadas e do lar”.

Mas de ambas as jornadas, apesar das agruras distintas pelas quais as duas irmãs passaram ao longo de suas vidas particulares, filhos e netos foram criados e bem criados, diga-se de passagem. Aliás, aí está outro ponto bem interessante a se refletir. As distintas histórias nos mostram que não existe modelo único, fechado e certo de família para que uma criança seja bem criada. Onde há amor, há família. Família não se resume a pai, mãe, filhos e laços de sangue. Família é uma instituição que se constrói por amor, por identidade, por troca e apoio mútuo, sem distinção de gênero, raça, classe…

É isso! Desculpem-me a viagem, mas questões religiosas fazem parte de minha formação e eu preciso analisá-las criticamente porque muitas dessas bolhas me chocam. O filme é maravilhoso para conhecer o passado e refletir sobre o que se está construindo no presente. Nós, mulheres, já ganhamos muito espaço, é verdade, mas a estrada ainda é longa. Vi o filme ontem à noite (22/11) e hj, ao ler o jornal O Globo bem antes de escrever este texto, deparei-me com a notícia de quatro feminicídios em 48h, de 21 a 22/11, no Estado do Rio de Janeiro. São as vidas mornas que muitos homens ainda agora, em pleno século XXI, querem impor às mulheres e, quando elas se negam a aceitar, correm o risco de acabarem, assim, mortas. Mas não é só a morte física que é gerada pela violência masculina. Como no filme, vivemos mortes morais, psicológicas, materiais, sociais, profissionais… Diariamente.

Sigamos! Mas sempre atentas e fortes, pois “não temos tempo de temer a morte”.

Vamos assistir ao filme A vida invisível, também, para valorizar e promover a produção cultural brasileira! Afinal, como disse Ferreira Gullar, “a Arte existe porque a vida não basta”.