“As alegrias da maternidade” e o papel da mulher na sociedade

‘Deus, quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?’, orava ela em desespero. ‘Afinal, nasci sozinha e sozinha hei de morrer. O que eu ganhei com isso tudo? Sim, tenho muitos filhos, mas com que vou alimentá-los? Com minha vida. Tenho que trabalhar até o osso para tomar conta deles, tenho que dar-lhes meu tudo. E se eu tiver a sorte de morrer em paz, tenho que dar-lhes a minha alma. Eles adorarão o meu espírito morto para que zele por eles (…) Quando ficarei livre? (…) Os homens nos fazem acreditar que precisamos desejar filhos ou morrer. Foi por isso que quando perdi meu primeiro filho eu quis a morte, porque não fora capaz de corresponder ao modelo esperado de mim pelos homens de minha vida, meu pai e meu marido, e agora tenho que incluir também meus filhos. Mas quem foi que escreveu que a lei nos proíbe de investir nossas esperanças em nossas filhas? Nós, mulheres, corroboramos essa lei mais que ninguém. Enquanto não mudarmos isso, este mundo continuará sendo um mundo de homens, mundo esse que as mulheres sempre ajudarão a construir. (p. 262-263)

Qual o valor de uma vida humana? Homens e mulheres têm um mesmo valor?! Até quando ratificaremos em nossas condutas, em nossos discursos e em nossas escolhas distinções entre homens e mulheres?

É preciso perceber que por trás de um um simples discurso de “rosa” ou “azul” para meninas ou meninos, respectivamente, há uma quantidade enorme de valores e atribuições que se perpetuam e se confirmam – sem que a maioria se dê conta – em oportunidades distintas, em mundos desiguais.

A literatura é uma escola de vida. Por meio dela conseguimos (re)conhecer mundos que nunca imaginaríamos se ficássemos restritos às nossas bolhas. Ou, ainda, mesmo que conseguíssemos imaginar, sem ela (a literatura), veríamos (julgaríamos?!) apenas à distância, sem sentir na pele, como canta Bethania, “a dor e a delícia de ser o que é”, as dores e as delícias de cada realidade. Mergulhar numa personagem nos permite viver e sentir com ela suas experiências boas e ruins, e isso promove empatia. O olhar (o juízo de valor) muda. Não há dúvida! E é isso que me faz pensar neste livro para além da narrativa e da cultura nigeriana.

É verdade que pertencemos a mundos bem diferentes e a história se passa também no século passado, antes, durante e pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial. Há um ponto, entretanto, que me faz crer que, sendo mulher, em pleno século XXI, não posso, de modo algum, me eximir de gritar contra tudo aquilo que oprime toda e qualquer mulher, independentemente de sua nacionalidade, de sua origem, de sua cultura, de sua religião.

Em As alegrias da maternidade, mergulhamos em uma cultura na qual a mulher é sempre objeto de posse de um homem (o pai ou o marido). Na morte de ambos, assume o filho ou o cunhado. Este, inclusive, por se tratar de uma cultura polígama, assume as funções sexuais,

‘Depois que eu tiver descansado, preciso ir visitar aquela boa mulher em Ibuza. Ela deve estar ansiosa por um homem. Para uma mulher, passar cinco anos sem homem… Meu irmão nunca me perdoará’. (p. 258)

tornando a própria cunhada em mais uma propriedade:

Nnu Ego desconfiava que ele queria ir até Ibuza para tornar Adankwo sua esposa da maneira normal, estabelecida pela tradição. Aquela mulher lhe pertencia por direito de herança, mas esse direito nunca fora exercido. (p. 258)

Na cultura Igbo, cabe à mulher o cuidado da casa e dos filhos, mas a ela pode caber também colocar dinheiro em casa para a criação de seus filhos. Só que tudo o que ela faz e produz passa a ser atribuído ao marido, já que ela é posse dele.

Nnaife é o chefe de nossa família. Eu sou propriedade dele, assim como todos nós somos propriedades de Deus que está no céu. Portanto, mesmo que eu pague as taxas escolares, sou propriedade de Nnaife. Sendo assim, em outras palavras, é ele que paga. (p. 307)

É lógico que, em se tratando de nossa cultura em pleno século XXI, isso tudo pode parecer um exagero. Se pensarmos, entretanto, na quantidade de mulheres que ainda hoje, quando engravidam, são abandonadas por seus companheiros para criarem sozinhas seus filhos; nas mulheres que apanham de seus homens; nas que trabalham o dia inteiro e ainda têm de assumir sozinhas todo o trabalho da casa… podemos ver que muitas coisas ainda não mudaram. E é aí que entra um discurso perigoso alimentado por princípios e valores (por exemplo, “meninas vestem rosa e meninos vestem azul”). Sem que muitos tenham a capacidade de enxergar, de refletir sobre ou de perceber, esse tipo de discurso – que mexe com o emocional de pessoas simples e boas que só desejam uma família com um perfil que conhecem como certo -, na sua simplicidade, fortalece, na verdade, as distorções que devemos combater.

A vida não é nada simples. É preciso enxergar que há muito mais coisas entre o céu e a terra. Por isso, conhecer e refletir sobre realidades distintas é fundamental. Chega a ser criminoso levantar a voz para defender esta ou aquela posição quando não se enxerga o que o outro vive de fato. Por essas e por outras que estamos aí, em pleno século XXI, alimentando, por exemplo, um genocídio negro. É preciso olhar com olhos que veem.

EMECHETA, Buchi. As alegrias da maternidade. 2a ed., Porto Alegre: Dublinense, 2018.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s