Fiquei com um pé atrás com o musical “Rua Azusa”

A história se passa em duas épocas diferentes. Uma, no presente, tem como objetivo fazer campanha de adoção de crianças acima da idade de maior desejo dos pretendentes que existem hoje. Essa parte traz um casal que tenta ter filhos, não consegue e acaba adotando após passar por uma crise séria em relação a quem adotar. Embora considere essa parte um pouco desencontrada da peça (não há uma costura bem feita e a atriz que atua no papel feminino deixa a desejar na atuação), a temática é interessante e a campanha de adoção, bastante legítima, principalmente nesses tempos tão sombrios.

A outra parte, que na verdade é o mote central do musical, é metateatro puro. Os atores estão ensaiando uma peça para contar a história da luta dos negros nos EUA e, perpassando por épocas distintas de escravidão, exploração, ausência de direitos, mortes, muito sofrimento e dor, chegam ao milagre que teria ocorrido na Rua Azusa, Los Angeles, Califórnia, onde negros e brancos se misturaram como iguais, no início do século XX, em meio ao assombro do terremoto que ocorrera em São Francisco.

A história de luta para vencer e superar tanta opressão é dolorosa demais. As situações apresentadas, por vezes, geram repugnância em quem assiste, por sabermos que se baseia em fatos verídicos. Mas uma coisa me incomodou muito. Vou explicar:

O chamado milagre ou reavivamento da rua Azusa se deve à fé e à pregação de um pastor afroamericano, William Joseph Seymour. Esse pastor traz às suas pregações experiências bíblicas de falar em várias línguas, cultos de adoração e empoderamento racial por meio da palavra de Deus.

E o que essa linda história tem a ver com o que estamos vivendo hoje?

Houve momentos da peça que eu não sabia se estava em um teatro ou em um culto de uma igreja evangelica pentecostal. O público interagia, gritando “Amém!” e “Aleluia!”, levantava os braços em oração, cantava junto… Foi uma sensação muito esquisita para quem, como eu, já teve contato forte com esse tipo de experiência (na Renovação Carismática Católica), mas que estava em uma peça de teatro numa 6a feira à noite.

Ao final, os atores falaram dos projetos sociais do grupo e informaram ser esse pastor o fundador da Assembleia de Deus.

Fiquei perplexa.

Saí de lá com a sensação de que a peça tem um objetivo bem definido. E, sem menosprezar em momento algum a luta contra o racismo e me conhecendo como alguém que abraça essa causa e atua como antirracista, preciso chamar atenção ao que me pareceu o objetivo final desse musical.

Em tempos de um conservadorismo proveniente de estruturas governamentais que se apoiam e se fortalecem baseadas em fundamentos de uma fé e de uma religião específica, não podemos amolecer o coração emocionado para que a condução política de nosso Estado e de nossa Nação se construa por meio da ilusão de uma fé. O que as igrejas evangélicas neopentecostais estão fazendo é muito sério.

O mundo não é uma capela!

Querer impor a sua religião como a certa, a única ou desqualificar o outro é intolerância (que fique claro que isso não foi feito no conteúdo da peça). O Estado é para todos e por isso deve se manter laico. Sempre!

A laicidade de um Estado é a garantia da democracia.

Em tempo, os atores cantam e atuam muito. O bailarino dá um show à parte. A mensagem de adoção e os absurdos do racismo, que no Brasil é estrutural, devem se multiplicar em diversos canais, mídias e gêneros textuais, para que mais pessoas entendam a necessidade de transformação social e abracem essa causa.

Mas cuidado! Não se pode querer tornar a sua fé, a sua religião em regra geral para todos.

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