A queima dos livros

Publicado no jornal O Globo de hoje, dia 10/09/2019. Texto do jornalista Arnaldo Bloch.

Em 10 de maio de 1933, dezenas de milhares de livros foram queimados em praça pública em Berlim e em toda a Alemanha, dentro de uma série de ações orquestradas por Joseph Goebbels, o gênio do mal da propaganda nazista. A ideia era purificar a cultura germânica. Mais tarde, o regime nazista iria queimar, mais do que livros, pessoas, depois de executá-las em câmaras de gás ou em valas comuns.

Sempre que começa essa conversa de proibir, censurar e recolher livros — como ocorreu na blitzkrieg de Marcelo Crivella na Bienal —, não consigo evitar que me venha à memória a queima dos livros na Alemanha. Recolher obras literárias, por qualquer motivo, é o primeiro passo para censurar, proibir e, um dia, lá na frente, como na Alemanha de 1933, incinerar.

Vivemos, ainda (quero crer), numa democracia. O gibi, dentro do universo HQ, é um formato híbrido, com conteúdos abertos a várias camadas, simultâneas, inclusive no que se refere às faixas etárias. A graphic novel “Maus”, de Art Spiegelman, um dos gibis mais celebrados da História, por sinal, é um imenso painel metafórico, serializado, das visões racialistas de Hitler.

Entre os autores cujos livros foram queimados em 1933 estão Thomas Mann , Albert Einstein, Walter Benjamin, Friedrich Nietzsche, Bertolt Brecht e Sigmund Freud. O fato de Karl Marx também figurar nela tem uma nota atual: classificado, hoje, pela desintelligentsia reinante, como um regime de esquerda, o nazismo tinha, como inimigos principais, os judeus e os comunistas, esses seus antípodas totalitários no campo esquerdista.

Hitler odiava, também, os negros. Quando Jesse Owens ganhou os 100m rasos nos Jogos de 1936, em Berlim, e uma série de outras medalhas de ouro, o Führer justificou o triunfo com a repugnante tese de que os negros são “essencialmente animais”, fisicamente mais fortes do que os brancos civilizados. E que deviam, futuramente, ser excluídos, por esse motivo, das competições.

Homossexuais eram alvos das cruzadas de ódio do ditador alemão, parecidas com muitas que hoje vicejam, nos exércitos de trolls em redes sociais e sites na deep web. Grupos assim somaram-se às campanhas de Trump, do Brexit, de Jair Bolsonaro, de Orban, ou de movimentos italianos como o 5 Estrelas e a Liga.

A preocupação de Hitler com a cultura era tão obsessiva quanto sua marcha genocida contra as etnias que escapavam a seu projeto de hegemonia racial. A exposição de Arte Degenerada, de 1937, pôs na fogueira da abominação pública escolas de pintura que hoje qualquer conservador aprecia. Picasso, Klee, Gauguin, Chagall estavam entre os difamados.

As fogueiras de livros foram aplaudidas pelo povo alemão que a elas assistia, mesmerizado. Assim como muitos hoje aplaudem as proibições de peças e exposições por juízes ativistas e a autocensura de patrocinadores atemorizados pelo terrorismo das brigadas de direita, que ameaçam a integridade física do público.

A Bienal, por ser tão querida na cidade, resistiu, e não se viram em torno do Riocentro tropas neofascistas apoiando a apreensão in loco. Mas, nas redes, salvas de fogos foram lançadas por multidões espumantes que, em diversos segmentos, dão o ar do tempo. Essas aguardam, pacientemente, o dia da grande queima.

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