Rakushisha e Todos os Santos, Adriana Lisboa

Pertencimento e identidade são dois temas que me parecem caros a Adriana Lisboa. Senti-os bem fortes em Rakushisha, que acabei de reler, e em Todos os Santos, livro que saiu do forno agora em agosto de 2019.

Qual é o lugar que eu ocupo no mundo? Tem nome, esse lugar? Tem dimensões? Altura, largura, profundidade? Será um som, apenas, ou um gesto, ou um cheiro, ou uma possibilidade nunca explorada?
(Rakushisha, p. 134)

Nas duas histórias, as personagens centrais buscam refazer suas vidas e ressignificar suas histórias depois que elas são brutalmente interrompidas com uma perda irreparável. As tramas são distintas, os espaços também, mas a dor da perda e a busca pelo preenchimento de algo que se despedaçou é da natureza humana e é universal. Adriana Lisboa enquanto escritora tem uma capacidade ímpar para conduzir seus narradores a nos fazerem sentir e refletir sobre essas dores.

Em Rakushisha, vemos que o processo é longo e eterno, “para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro.” (p. 11) e que “A viagem nos ensina algumas coisas. Que a vida é o caminho e não o ponto fixo no espaço. Que nós somos feito a passagem dos dias e dos meses e dos anos, como escreveu o poeta japonês Matsuo Bashö num diário de viagem, e aquilo que possuímos de fato, nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar.” (p. 187)

Em “Todos os Santos”, Vanessa luta contra o vazio desde a adolescência até sua vida adulta, em relações que perpassam o parentesco ilusório e a amizade marcada por traumas, dores e não-ditos.

Nas duas histórias, porém, no processo de descoberta de sua própria identidade, as personagens principais, duas mulheres também narradoras, Celina (Rakushisha) e Vanessa (Todos os Santos), questionam suas vidas e os acontecimentos que as levaram aonde naquele momento se encontram. Ambas se perguntam algumas vezes: “E se”?

“E se eu não voltasse? E se o ônibus, uma chuva, as águas, um motorista com sono, uma curva qualquer, e se?”
(Todos os Santos, p. 55)
“A viagem sempre é pela viagem em si. É para ter a estrada outra vez debaixo dos pés. Há sempre um E SE em algum lugar –
E SE eu não tivesse vindo para Kyoto com Haruki,
E SE Haruki e eu tivéssemos entrado em vagões diferentes de metrô,
E SE não estivesse chovendo naquela tarde,
E SE eu não tivesse visto o livro nas mãos dele,
(…)
E SE a viagem fosse outra viagem.”
(Rakushisha, p. 124-125)

Ambos os livros precisam ser lidos com calma. Eles exigem sensibilidade e reflexão. Estou encantada com tudo que li até agora dessa escritora nascida no Rio de Janeiro e da minha idade.

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