Girassois estendidos na chuva – Louise Queiroz – dica da Djamila Ribeiro

Encomendei este livro no site da editora. Não o encontrei à venda em livrarias. Resolvi lê-lo por indicação da filósofa Djamila Ribeiro em artigo na Folha de São Paulo quando da morte de Toni Morrison. Os poemas de Louise Queiroz – BAIANA como a minha família – são precisos, fortes, rascantes e belos. Vale muito a leitura.

Djamila diz que:

“Girassois são famosos pelo heliotropismo, ou seja, o movimentos da planta em direção ao sol, girando o caule.

A luz solar serve para facilitar a fotossíntese e acumular energia necessária para o crescimento das sementes. Porém, esse fenômeno acontece só na fase de crescimento da planta. Ao florescer, ela não se vira mais ao Sol. A planta madura não precisa mais buscar o Sol todos os dias, por assim dizer. Dá uma interessante metáfora.
Ao ler os poemas de Queiroz, vi em alguns o girassol florescendo, em outros, a planta cheia de flores.
A poeta fala dos silêncios ditos e não ditos. Seu olhar sobre o amor e recusas, sua tentativa de quebrar o silenciamento é forte.
Todo florescer é uma dor também, assim como a busca pelo Sol mesmo em dias de chuva. Estender girassóis em dias de chuva requer coragem. São coisas de quem gosta de praia em dia nublados.
Geralmente, só quem ama o mar vai visitá-lo em dias nublados ou com chuva. Surfistas pegam onda, pássaros pousam na areia por mais tempo, algumas pessoas caminham sem pressa.

É possível observar detalhes escondidos. A conversa com o mar é mais longa e sem interrupção, o som das ondas acalma, o silêncio é mais profundo. Não há distrações, há o desejo real de estar ali. Quem ama o mar, o faz de modo incondicional porque não são necessários dias ensolarados para vislumbrar o infinito. Assim como o girassol sabe a hora de não precisar se virar ao Sol.
Os poemas de Queiroz são de entrega e leveza, dor e prazer —não se nega a vida.

Girassóis Estendidos na Chuva” me faz lembrar de uma frase de Morrison: “Eu quero sentir o que eu sinto, mesmo que não seja felicidade”.
Em uma sociedade apavorada por sentir dores próprias da condição humana, o livro faz um chamado à vida.
Assim, de longe/ Com o corpo cheio de sua ausência/ Minha língua tinge silêncios na falta”, diz um dos poemas de Queiroz. Assumir a falta é sentir o que se sente.

Deixo, para dar muita vontadezinha de ler o livro inteiro, um poema de Louise Queiroz (p. 22)

O não-dito ecoa

O indizível penetra
minha carne com a soberba
de um vulcão em chamas

pesado, áspero, veloz
percorre faminto devorando
as horas

tritura palavra por palavra
açoita o eco do verso por vir

em silêncio
incomoda, fere, rasga
grita sílabas soltas

e morre
antes de a poesia surgir.

Apenas um comentário com ressalva:

A apresentação feita por Nina Rizzi deixa a desejar em alguns detalhes quanto ao uso da variedade culta da língua. Além disso, gerou-me estranhamento o uso do vocábulo “poema” no feminino. Ainda estou tentando descobrir se sou eu que desconheço ou se ainda não tenho conhecimento para entender o uso.

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