21 lições para o século 21, de HARARI, e o fascismo

Mais um trecho destacado deste livro fantástico, com destaques meus em negrito. Vale muito a leitura!

Quase ninguém tem apenas uma identidade. Ninguém é só um muçulmano, ou só um italiano, ou só um capitalista. Mas de vez em quando surge um credo fanático e insiste que as pessoas deveriam acreditar em apenas uma única narrativa e ter somente uma identidade. Nas gerações recentes o mais fanático desses credos foi o fascismo. O fascismo insistia que as pessoas não deveriam acreditar em nenhuma narrativa a não ser a nacionalista, e não deveriam ter nenhuma identidade, exceto sua identidade nacional. Nem todos os nacionalistas são fascistas. A maioria dos nacionalistas têm uma grande fé na história de sua nação e enfatizam o mérito exclusivo de sua nação e as obrigações que têm exclusivamente para com ela — no entanto reconhecem que no mundo há mais do que sua nação. Posso ser um italiano leal com obrigações especiais para com a nação italiana, e ainda assim ter outras identidades. Posso ser também socialista, católico, marido, pai, cientista e vegetariano, e cada uma dessas identidades envolve obrigações adicionais. Às vezes várias de minhas identidades puxam-me para diferentes direções, e algumas de minhas obrigações entram em conflito uma com a outra. Mas quem disse que a vida é fácil?

Fascismo é aquilo que acontece quando o nacionalismo quer tornar a vida fácil demais para ele, negando todas as outras identidades e obrigações. Recentemente tem havido muita confusão quanto ao significado exato de fascismo. Pessoas chamam quase todas as pessoas das quais não gostam de “fascistas”. O termo corre o risco de degenerar num insulto genérico. Então, o que ele realmente significa? Em resumo, enquanto o nacionalismo me ensina que minha nação é uma só e que tenho obrigações especiais em relação a ela, o fascismo diz que minha nação é suprema, e que devo a ela obrigações exclusivas. Nunca devo preferir os interesses de qualquer grupo ou indivíduo aos interesses de minha nação, não importam quais sejam as circunstâncias. Mesmo que minha nação se disponha a obter uma vantagem insignificante ao infligir muita miséria sobre milhões de estrangeiros numa terra distante não devo ter escrúpulos em apoiar minha nação. De outro modo, sou um traidor desprezível. Se minha nação exigir que eu mate milhões de pessoas — devo matar milhões de pessoas. Se minha nação exigir que eu traia a verdade e a beleza — devo trair a verdade e a beleza. Como um fascista avalia a arte?

Como um fascista sabe se um filme é bom? É muito simples. Só existe um parâmetro. Se o filme atende aos interesses nacionais — é um bom filme. Se não atende aos interesses nacionais — é um filme ruim. E como um fascista decide o que se deve ensinar às crianças na escola? Ele emprega o mesmo parâmetro. Ensinar às crianças tudo o que atenda aos interesses da nação; a verdade não tem importância.

O culto à nação é extremamente atraente, não só porque simplifica muitos dilemas difíceis, mas também porque faz as pessoas pensarem que pertencem à coisa mais importante e mais bela no mundo — sua nação. Os horrores da Segunda Guerra Mundial e o Holocausto mostram as terríveis consequências dessa linha de pensamento. Infelizmente, quando pessoas falam sobre os males do fascismo, elas muitas vezes fazem um trabalho ruim, porque tendem a descrever o fascismo como um monstro oculto, sem explicar o que é tão sedutor nele. Por isso, hoje em dia, as pessoas às vezes adotam ideias fascistas sem se dar conta disso. Elas pensam: “Ensinaram-me que o fascismo é feio, e quando olho no espelho vejo algo muito bonito, então não posso ser um fascista”.

HARARI, Yuval Noah. 21 lições para o século 21 . São Paulo: Companhia das Letras, 2018. P. 357-359.

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