Eu sei por que o pássaro canta na gaiola – Maya Angelou

Maya Angelou escreveu, em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, uma autobiografia. Preciso dizer que comprei esse livro para ler sem saber disso. Aliás, comprei-o há alguns meses e o deixei parado em minha pilha de “próximas leituras” até 4ª feira passada, quando achei que fosse ler um romance pesado, sobre questões sociais da mulher negra, mas que viesse com uma roupagem mais forte de ficção (dá para entender o que quero dizer?).

Me enganei!

(SPOILER)

É a história de vida da autora, inicialmente abandonada pelos pais aos 3 anos de idade, estuprada aos 8, mãe solteira aos 16.

(FIM DO SPOILER)

Uma porrada na cara! Dores dilacerantes me tomaram e momentos de choro e agonia se misturaram com raiva, ódio, carinho e amor.

Maya Angelou chegou às minhas mãos porque vi esse título algumas vezes anunciado como livro do mês em Clubes de Leitura voltados para a leitura de escritorAs e também EscritorAs Negras; e também porque seu nome está sempre sendo associado a outras autoras que tenho lido, como Conceição Evaristo, Chimamanda, Djamila Ribeiro, Angela Davis entre outras. Essas grandes mulheres estão me apresentando a História por outro viés – pelo olhar da mulher negra, em oposição à escrita que sempre esteve nas mãos de homens brancos.

Em suas memórias, Maya nos permite reviver a segregação racial por cerca de treze anos da História dos EUA, em meio aos efeitos tardios da crise de 1929, quando atinge os negros do Sul, e depois as mudanças com as demandas de mão de obra nas indústrias de armas durante a Segunda Guerra Mundial. Ela nos mostra a sua vida e a de seu irmão desde os seus três anos de idade (quatro dele), quando ambos são abandonados pelos pais que se separam e, por isso, são enviados praticamente sozinhos numa longa viagem de trem até a casa da avó em Stamps, no Arkansas. Eles vivem por anos com essa avó e um tio, sem entenderem o abandono, sentindo-se culpados, até que o pai os busca de volta e os deixa com a mãe por um tempo. E assim continua a saga de ambos entre Norte e Sul dos EUA, numa época em que o ir e vir dos negros era limitado e arriscado.

A história é longa, mas de leitura fluida. Há muitas informações preciosas em construções marcantes e poéticas, mas também, como já apontei, momentos que nos levam ao desespero do horror.

Como é possível tanta maldade no mundo?

Por que pessoas lúcidas como eu e você que lê esta resenha agora permitimos que tantas diferenças e violências perpetuem e sejam usadas como “arma” política por pessoas inescrupulosas?

O exercício de empatia é uma necessidade urgente!

Em breve vou destacar algumas passagens (falta-me tempo para digitá-las agora). Fica, no entanto, a dica de leitura como uma das mais importantes para enxergarmos como a desigualdade se legitima como natural e, assim, se mantém arraigada não só na estrutura social como também no nosso olhar que a vê sem estranhamento ou indignação concreta.

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