Sobre a salvação da minha alma – Rubem Alves

Estava precisando ler algumas palavras que confortassem meu coração. Acredito profundamente em Deus, mas em um Deus Amor, que hoje não está ligado a uma religião específica. Minha fé não se baseia na troca de favores nem depende da interpretação manipuladora de padres, pastores e políticos que barganham poder por meio da crença de gente simples ou desesperada. Rubem Alves foi um tiro certo. Um tiro de amor e de vida, nao de ódio ou de morte. Li seu livro A grande arte de ser feliz numa tacada só.

Transcrevo abaixo uma das crônicas dessa obra. Em tempos em que pessoas religiosas falam mais do inferno do que do céu, mais do demônio do que de Deus, é preciso pensar no significado de algumas palavras e de muitas parábolas…

Os grifos são meus. Não consigo deixar de destacar algumas partes espetaculares.

Sobre a salvação de minha alma

O que eu escrevi sobre e a fé causou perturbação em muitos leitores. Eles concluíram que a salvação da minha alma estava em perigo e me enviaram cartas, e-mails e telefonemas, com perguntas e advertências bíblicas sobre o assunto. Para tranquilizá-los, vou me explicar

1. Sobre a Bíblia. Eu a estudei muito e a amo. Para mim ela é um poema cujas palavras me confortam e me fazem mais sábio. Mas é preciso fazer uma distinção entre as palavras do poema, escritas, e aquilo que as pessoas pensam, ao lê-lo. Toda leitura é uma interpretação, isto é, os pensamentos das pessoas que a leem. Todo sermão é pensamento de um homem e não pensamento de Deus. A interpretação é diferente do poema. Cada igreja, cada congregação, cada seita se organiza em torno de uma interpretação particular, a da palavra de homem. Mas cada uma delas tem a ilusão de que a sua interpretação é a Palavra de Deus. Sendo a Palavra de Deus, é a única verdadeira. É muita presunção pensar que somente a minha seita interpreta certo e todas as outras interpretam errado. O que eu escrevo é a minha interpretação, tão problemática quanto qualquer outra. É preciso não se esquecer da sabia afirmação do apóstolo Paulo: nós não sabemos direito as coisas; o que vemos são reflexos trêmulos e obscuros num espelho mal polido. É preciso não confundir os reflexos no espelho com o rosto verdadeiro que ninguém jamais viu. De Deus, a única coisa absolutamente certa que conhecemos é o amor (cf. 1Cor 13).

2. O que é a fé? É também uma questão de interpretação. Há pessoas que pensam que fé é um recurso mágico que garante que Deus vai nos atender. Para elas, um Deus que não atende a pedidos é um Deus muito fraco. Elas desejam garantias. Na minha interpretação, fé é uma relação de confiança com Deus: é flutuar num mar de amor, como se flutua na água. Quem é que ama mais o pai? Aquele que é fiel ao pai porque ele lhe dá os presentes pedidos, ou aquele que ama o pai, mesmo que ele não lhe dê presentes? A gente ama o pai é pelos presentes e bênçãos que ele dá, ou por ele mesmo? Amo a Deus, mesmo que não me dê presentes.

3. Acho que Cristo enche todos os espaços do universo. Lutero falava da “ubiquidade” do corpo de Cristo e dizia que ele está presente até na menor folha, muito embora nas folhas o nome dele não esteja escrito. Quem ama uma folha ama Cristo. Quem tem amor respira Cristo, mesmo que não fale o nome dele. Tiago diz que os demônios sabem tudo sobre Deus e, no entanto, são demônios. Os Reformadores falavam no “Christo absconditus” — isto é, o Cristo escondido, invisível, sem nome, em toda a criação. Quem ama, mesmo que não cite as Escrituras nem saiba o nome de Cristo, está nele. Cristo não pode ser engarrafado em nomes religiosos. Isso seria heresia, negar a sua onipresença.

4. As Escrituras Sagradas são um livro enorme. Muitos dizem que as Escrituras inteiras são inspiradas. Se realmente acreditam nisso, então todos os textos têm de ser objeto do nosso amor, são “palavras de Deus”. Noto, entretanto, que eles se comportam como se alguns textos fossem mais inspirados do que outros. Fazem silêncio sobre muitos textos. Por exemplo, nunca ouvi sermão católico ou sobre “Amada minha, em tua língua há mel e leite. Teus seios são como duas crias gêmeas de gazela…” (Ct 4,11 e 5); “Anda, come teu pão com alegria e bebe contente o teu vinho… Goza a vida com a mulher que amas todos os dias da tua vida…” (Ecl 9, 7 e 9). Por que o silêncio? Acho que, secretamente, eles acreditam que uns textos são mais palavra de Deus do que outros…

5. E quanto ao destino de minha alma, não se preocupem. Foi Jesus mesmo que disse aos fariseus, religiosos que viviam citando as Escrituras e tentando converter os outros, que as meretrizes entrariam no Reino dos Céus antes deles. E notem: Jesus não disse: meretrizes arrependidas. Entram as meretrizes mesmo e, atrás delas, entram também os fariseus hipócritas e tudo o mais que Deus criou. Deus criou tudo, não é? Vocês acham que ele ia entregar ao Diabo aquilo que saiu das suas mãos? Um Deus que é todo amor não pode ter no seu universo uma câmara de torturas eternas em que as almas sofrem por pecados cometidos no tempo. Quem iria ficar feliz com isso é o Diabo. E vocês acham que Deus está a fim de realizar os desejos do Diabo? No fim, o amor de Deus triunfa! E nós todos, vocês, eu, meretrizes e tudo o mais, estaremos entrando…

ALVES, Rubem. A grande arte de ser feliz. São Paulo: Planeta, 2014.

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