“A casa dos espíritos”, de Isabel Allende, e os ciclos de nossa História…

Li agora em julho A casa dos espíritos, de Isabel Allende. A narrativa em realismo fantástico é maravilhosa e as personagens femininas têm uma força que nos fortalece para enfrentarmos a vida e as agruras deste inacreditável ciclo que teima se repetir. Precisamos ler, ler e (re)conhecer nossa História, nossos medos, nossas visões limitadas e resistentes às mudanças, ao novo, para ver se aprendemos alguma coisa válida e rompemos esse processo tão doloroso e que nos diminui, nos faz regredir.

O que Allende traz nessa obra escrita nos anos 1980 sobre o que ocorreu entre 1905 e 1975 no Chile me pareceu muito familiar. Mas o que mais me assutou foi reconhecer alguns pensamentos e ações das personagens em nosso momento político atual.

Deixo aqui trechos para podermos refletir. Os destaques em negrito são meus.

(…) Alguns estimulados pela violência daqueles dias, detinham os homens de cabelo comprido ou barba, sinais inequívocos de seu espírito rebelde, e mandavam parar na rua as mulheres com calças compridas, para cortá-las a tesouradas, porque se sentiam responsáveis por impor a ordem, a moral e a decência. (p. 388)

O senador Trueba não quis sequer ouvir falar sobre o assunto, como faziam as pessoas da sua classe, e negou a existência da fome com a mesma teimosia com que negava a dos presos e dos torturados. (…) (p. 396)

Os jornais disseram que os mendigos de rua, que não eram vistos havia tantos anos, eram mandados pelo comunismo internacional para desprestigiar a Junta Militar e sabotar a ordem e o progresso. Fecharam-se com tapumes os bairros pobres, ocultando-os dos olhos dos turistas e dos que não queriam ver. (…) (p. 396)

De uma só penada, os militares mudaram a história, apagando os episódios, as ideologias e as personagens que o regime desaprovava. Adequaram os mapas, porque não havia nenhuma razão para pôr o Norte em cima, tão longe da pátria benemérita, se se podia pôr embaixo, onde ficava mais favorecido, e, de passagem, pintaram com azul da prússia vastas margens de águas territoriais até os limites da Ásia e da África, e se apoderaram de terras longínquas nos livros de geografia, retraçando as fronteiras impunemente, até que os países irmãos perderam a paciência, gritaram nas Nações Unidas e ameaçaram com tanques de guerra e aviões de caça. A censura, que a princípio só atingiu os meios de comunicação, logo se estendeu aos textos escolares, às letras das canções, aos roteiros dos filmes e às conversas privadas. Havia palavras proibidas por decreto militar, como “companheiro”, e outras que não se diziam por precaução, apesar de nenhum decreto tê-las eliminado do dicionário, como liberdade, justiça e sindicato. Alba perguntava-se de onde teriam saído tantos fascistas de um dia para o outro, porque, na longa trajetória democrática de seu país, nunca os havia notado, exceto alguns exaltados durante a guerra, que, por macaquice, vestiam camisas negras e desfilavam com o braço para o alto, em meio às gargalhadas e às vaias dos transeuntes, sem que tivessem qualquer papel relevante na vida nacional. Tampouco se explicava a atitude das Forças Armadas, cujos membros em sua maioria provinham das classes média e operária, e que, historicamente, tinham estado mais perto da esquerda do que da extrema direita. (p. 398-399)

ALLENDE, Isabel. A casa dos espíritos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2016.

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