Vidas negras importam! – “Olhos que condenam”, série Netflix

Se você é negro e está no lugar errado, na hora errada, está ferrado.

Se você é negro, só porque você é negro, é suspeito ou até criminoso.

Esta é a conclusão a que podemos chegar no mundo em que vivemos hoje. Esta é a história real da vida de cinco garotos americanos, de 12 a 16 anos, condenados por agressão e estupro a uma mulher branca em 1989, no Central Park, NY, e agora nos é contada na série “Olhos que condenam”, em inglês, When they see us, recém-lançada pelo Netflix. Esta é a real história de garotos negros nos EUA e também aqui no Brasil. Agora!

O título original em inglês, em tradução literal – Quando eles nos veem – mostra bem a situação, em nossa sociedade, de pretos e pardos, que podem sair de suas casas para brincar, estudar, trabalhar e não voltar. Podem estar andando normalmente a pé ou de ônibus, como pessoas comuns, e serem abordados por policiais para verificarem seus pertences ou, se desejarem, os levarem, sem motivo evidente, para a delegacia (só por serem negros!). Podem também entrar em alguma loja e terem de abrir, na saída, suas bolsas para comprovarem que nada pegaram.

E ouso dizer que, se isso ainda hoje acontece, é porque pessoas como eu ou você, cidadãos comuns, mantemos uma visão preconceituosa tão arraigada que, embora conscientes da necessidade de mudança, volta e meia ainda reproduzimos mesmo sem querer – ou nos calamos diante de – inúmeras atitudes ou ideias repletas de estereótipos e não lutamos ou acatamos políticas públicas diferenciadas que atinjam mais intensamente em benefício dos menos favorecidos.

No Brasil, o Atlas da Violência que acabou de ser publicado mostra bem essa diferença de tratamento.

Dos 65.602 homicídios registrados em 2017, 75,5% das vítimas eram negras (= pretos e pardos).

De 2007 a 2017, a taxa de homicídios de negros subiu 33.1%. No mesmo período, a taxa de homicídios de não negros subiu 3.3%. A de homicídios de mulheres negras subiu 29,9% e de mulheres não negras 1,6%.

A diferença é gritante!

E, quando se percebe que, dentre as vítimas de homicídio, 74,6% dos homens e 66,8% das mulheres não terminaram o Ensino Fundamental, constatamos que é preciso repensar as políticas públicas para que as ações sejam diferenciadas e direcionadas de acordo com as necessidades específicas.

É por isso que, embora todas as vidas sejam obviamente importantes, gritar e lutar pela percepção de que vidas negras importam é uma questão de respeito, ou melhor, de humanidade, de valor real à vida daqueles que, há bastante tempo, vêm sendo colocados como sub-humanos, como gente de segunda classe, como se não fossem tão dignos como eu ou você, não negros (aqui no Brasil).

No filme, Donald Trump, na época apenas um milionário excêntrico, lutava pela legalização da pena de morte já em ações claramente raciais. Hoje, vemos suas ações concretas de construção de muros e diversas afirmações com distorções raciais. Isso vem acontecendo lá e aqui, nos discursos dos atuais presidente e governador do Rio. Políticos que insuflam o medo na população para justificar mortes e chacinas contra aqueles que menos têm condições de lutar pelos seus direitos. Que tal mísseis arremessados na Cidade de Deus?! Armemos os cidadãos de bem, muitos deles semelhantes à ex-promotora americana Linda Fairstein (se não entendeu a relação veja a série) para que se protejam e protejam suas famílias.

Vale muito assistir a esta série. São só 4 episódios.

3 comentários

  1. Opa Tati,

    Como disse, acho que não consigo, no contexto atual, assistir está série 😟

    Mas vou retribuir a gentileza. Até o dia 25/05 o MAR está com entrada gratuita.

    Entre as várias coisas bacanas tem uma exposição de uma artista que está dialogando com a temática desta série.

    A questão da mulher negra silenciada, objetificada e outras agruras mais…

    Impactante! Vale a vista. De bônus, hoje (22/06) tem show da Ludmila, 0800, num palco montado em frente ao MAR.

    Curtido por 1 pessoa

      • Então já está bem alimentada de arte e coisas bacanas. Nos correios só vi a exposição das cartas do Oswaldo. E no CCBB só vi a do hiperrealismo… E ainda tem muita coisa bacana por lá. Que bom que, pelo menos, ainda temos fartura de cultura!

        Curtido por 1 pessoa

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