“O sentido de um fim”, Julian Barnes

“Os que negam o tempo dizem: quarenta anos não são nada, aos cinquenta você está na flor da idade, sessenta são os novos quarenta, e assim por diante. Eu sei de uma coisa: que existe o tempo objetivo, mas que também existe o tempo subjetivo, do tipo que usamos na face interna do pulso, perto do lugar onde se medem as pulsações. E este tempo pessoal, que é o verdadeiro tempo, é medido na sua relação com a memória.” (p. 144)

Que narrativa(s) de sua/minha vida lhe/me convém/convêm? O que os seus/meus ditos e não-ditos geram naqueles que o/me rodeiam em determinados momentos da sua/minha vida?

A leitura do perturbador O sentido de um fim, do premiado – porém desconhecido para mim – escritor Julian Barnes, me tirou do prumo. Narrado em primeira pessoa, o ponto inicial que me perturba tem a ver com qual é a sua/a minha verdade, isto é, que verdade ou verdades sustentam a sua/a minha história de vida e o seu/o meu olhar sobre o mundo? Um segundo ponto é descobrir que – como a personagem Veronica diz diretamente ao personagem-narrador e protagonista, Tony Webster, “Você não entende nada.” – eu não entendo nada!

Subjetividades…

“Na juventude, conseguimos nos lembrar de toda a nossa curta vida. Mais tarde, a memória vira uma coisa feita de retalhos e remendos. É um pouco como a caixa-preta que os aviões carregam para registrar o que acontece num desastre. Se nada der errado, a fita se apaga sozinha. Então, se você se arrebenta, o motivo se torna óbvio; se você não se arrebenta, então o registro de sua viagem é muito menos claro.” (p. 125)

Que fatos se mantêm vivos, coerentemente claros, em nossa “caixa-preta”? Como enxergamos isso? Qual a nossa versão da nossa história pessoal e, consequentemente, por que perspectivas enxergamos o mundo e nos posicionamos sobre as coisas? Afinal, “história é aquela certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação”. (p.28) Quais lembranças queremos que sobrevivam? Quais lembranças sobrevivem?

“Eu sobrevivi. ‘Ele sobreviveu para contar a história’ – é assim que as pessoas falam, não é? A história não se resume às mentiras dos vencedores (…); eu sei disso agora. Ela é feita mais das lembranças dos sobreviventes, que geralmente, não são nem vitoriosos nem derrotados.” (p. 71)

E como é fácil jogar a bola dos problemas para o outro…

“Na verdade, essa questão de imputar responsabilidade não é uma espécie de desculpa? Nós queremos culpar um indivíduo para que todos os outros sejam isentos de culpa. Ou culpamos um processo histórico como forma de exonerar os indivíduos. Ou é tudo um caos anárquico, com a mesma consequência. Eu tenho a impressão de que existe, existiu, uma cadeia de responsabilidades individuais, todas elas necessárias, mas não uma cadeia tão longa que todo mundo possa simplesmente culpar todo mundo. Mas, é claro, meu desejo de atribuir responsabilidade pode ser mais um reflexo do meu próprio modo de pensar do que uma análise justa do que aconteceu. Esse é um dos principais problemas da história, não é, senhor? A questão da interpretação subjetiva versus a interpretação objetiva, o fato de que nós precisamos conhecer a história do historiador a fim de entender a versão que é colocada diante de nós.” (p. 23)

O filme de 2017, baseado no livro:

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