Se Madalena não tivesse sido calada…

Há muito venho me perguntando como seria o mundo se a história fosse contada por mulheres… O escritor e jornalista que sempre acompanho no El País, Juan Arias, em seu livro Madalena: o último tabu do cristianismo, traz algumas reflexões sobre isso.

Citando inúmeros estudiosos, filósofos, teólogos e os quatro evangelistas canônicos, é possível sentir na pele que toda a hierarquia masculina da Igreja Católica provém de uma misoginia perpetuada desde o início pela tradição judaica. Como diz Arias, “para começar, as mulheres judias eram proibidas de estudar. (Houve exceções porém são escassíssimas e pouco significativas em geral.) Seu lugar era o lar, e sempre deviam manter a cabeça coberta com o manto. Para o historiador judeu Flávio Josefo, a mulher judia ‘é inferior ao homem em todos os sentidos’. No Templo não podia passar do vestíbulo; e na sinagoga nunca podia tomar a palavra. Não podia ler em público as Escrituras. A mulher adúltera era condenada à morte por apedrejamento. Sua palavra não tinha nenhum valor e seu testemunho não era válido nos julgamentos. (Jesus, que conhecia muito bem as leis judaicas, escolheu uma mulher como testemunha do fato excepcional da ressurreição e forçou que o testemunho de uma mulher fosse acreditado. Cabe maior transgressão da lei?)” (ARIAS: 2006, p. 90, grifo em negrito meu)

Infelizmente, porém, apesar do poder que Jesus deu às mulheres por meio de Maria Madalena, os homens, ao longo dos anos seguintes, foram tirando delas – de nós – o respeito e a dignidade. É o próprio Arias quem ratifica isso citando autores que dão base ao pensamento da Igreja Ocidental. Ele diz:

“Em algumas passagens da Bíblia, a mulher está catalogada como um bem material do qual o marido pode dispor para seu prazer. Tampouco na cultura grega a mulher era mais valorizada. O filósofo Aristóteles afirma que a mulher ‘possui uma natureza defeituosa e inferior’. A misoginia também foi própria dos intelectuais romanos: Ciceron escreveu que ‘se não existissem as mulheres, os homens poderiam falar com Deus’. E Santo Agostinho, que na juventude havia gozado generosamente dos prazeres do sexo, escreve que a mulher é “um animal que se compraz só em olhar-se no espelho’. São Tomás, que seguiu Aristóteles para redigir a Suma Teológica, da qual procederia toda a teologia católica posterior, chegou a afirmar que era duvidoso que a mulher tivesse alma.

(…)

Um dos princípios da desvalorização feminina consistia em uma comparação negativa a respeito do homem. Explica-se assim que todo judeu desse graças a Deus, cada dia, ‘por não havê-lo feito mulher’. (…)” (ARIAS: 2006, p. 91, grifos meus)

E assim a história, escrita e contada por homens, se constroi de acordo com as suas vontades em prol de seus desejos e interesses, guerras e poderes…

E a mulher?!

Subordinada e materializada como objeto a ser possuído e usado ao bel prazer masculino vai seguindo o seu curso em lutas diárias, sofridas, com gritos tantas vezes abafados, domesticados. E a igreja não só calou a mulher, como nos doutrinou durante séculos a acreditar que Madalena era uma prostituta (olha a Fake News aí!) a quem Jesus perdoou com a sua misericórdia e amor. Então, Maria, a mãe – virgem, pura e santa -, se torna o ideal feminino, em defesa de uma virgindade e de uma castidade tão interessantes para os moldes conservadores de uma sociedade machista, domesticadora da mulher. Entretanto, para que o ser humano comum se enxergue na possibilidade de atingir tal santidade, cria-se a outra Maria, a Madalena, pecadora – do pior dos pecados para uma mulher (na visão deles!) – arrependida e perdoada. E assim vivem as mulheres aprisionadas em estereótipos. Desde Eva, passando por Maria e chegando a Madalena, fomos rotuladas de putas (queimem-nas!) e santas (“belas, recatadas e do lar”), sempre culpadas pelas tentações e pecados dos homens, os varões, machos, feitos à imagem e semelhança de Deus.

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