O olho mais azul, de Toni Morrison

Imagine uma criança, em toda a sua inocência e ingenuidade, correr a um charlatão que promete realizar qualquer desejo para lhe pedir aquilo que lhe parece o diferencial entre os que são bem tratados ou maltratados, aceitos ou renegados, bonitos ou feios…

Imagine essa mesma criança passar por tantas dores e maus tratos, mas não conseguir lutar ou pedir ajuda. Sua única esperança para mudar de vida é conseguir ter olhos azuis e, para conquistar seu desejo, reza fervorosamente a Deus e acaba na casa de um “bruxo”:

“Eu quero olhos azuis.”

(…) Aquele era o pedido mais fantástico e, ao mesmo tempo, mais lógico que já lhe tinham feito. Ali estava uma menina feia pedindo beleza. Uma onda de amor e compreensão o invadiu, logo substituída por raiva. Raiva de não poder ajudá-la. De todos os desejos que já lhe tinham trazido – dinheiro, amor, vingança -, aquele lhe pareceu o mais comovente e merecedor de realização. Uma menina negra que desejava alçar-se para fora do fosso de sua negritude e ver o mundo com olhos azuis. Sua indignação aumentou e teve gosto de poder. Pela primeira vez ele sentiu, honestamente, vontade de ser capaz de fazer milagres. (p. 181)

Ler O olho mais azul, de Toni Morrison, significa ler e (re)conhecer a dor de milhares de pessoas – crianças, jovens e adultos – que sempre tiveram negado o direito de serem vistos como pessoas de bem, pessoas bonitas, simplesmente pessoas, seres humanos, com sentimentos e emoções.

Cada personagem que se abre aos nossos olhos mostra suas dores e dissabores, além de uma perspectiva do olhar e do peso das marcas de preconceito e exclusão registradas em sua própria vida. Toni Morrison, com isso, lançou uma possível batalha interna no leitor, que fica entre o desespero de condenar ou de justificar (perdoar?!) ações irreparáveis que destroçam vidas.

Pecola, no entanto, representa a junção ou o somatório de dores e sofrimentos que angustiam qualquer ser um pouquinho consciente que seja de sua própria humanidade. O mais perturbador é perceber que os olhos – janela para o mundo, pedido de Pecola ao charlatão – são a metáfora da beleza, mas também a indicação da cegueira de si mesma. Se não se enxerga, não existe. Por isso todo o seu sofrimento se mantém no silêncio, não há o que dizer na inexistência.

Pecola não desenvolveu a capacidade de se enxergar porque a sua imagem não tinha representação alguma social na qual pudesse se identificar como pessoa e porque também não era vista por ninguém ao seu redor. Enxergar o outro como ele é significa dar ao outro o direito de ser, de fato, o que é. Negar ao outro esse direito equivale a tirar a sua vida, negar a sua existência.

O amor nunca é melhor do que o amante. Quem é mau, ama com maldade, o violento ama com violência, o fraco ama com fraqueza, gente estúpida ama com estupidez, e o amor de um homem livre nunca é seguro. Não há dádiva para o ser amado. Só o amante possui a dádiva do amor. O ser amado é espoliado, neutralizado, congelado no fulgor do olho interior do amante. (p. 212)

Livro sensacional! Foi indicação da Filósofa Djamila Ribeiro na Tag Curadoria.

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