Imagine uma feminista na Idade Média. Ela existiu: Christine de Pizan

Lógico que o título acima é ousado. Christine de Pizan é uma feminista aos nossos olhos de hoje, mas, na época em que escreveu seus textos, na França do Século XIV, não existia nem em sonho a ideia de feminismo, mas ela lutou, sim, contra a misoginia. Christine de Pizan, filha de um intelectual italiano da época, foi educada na França em meio às Letras e encontrou nelas sua fonte de sustento após perder pai e marido e ter de prover as necessidades de sua casa.

Assustada, porém, com o que os homens que lia falavam das mulheres, ela resolveu ir em defesa de si mesma e de todas, tornando-se, pelos registros existentes, uma das primeiras mulheres a argumentar e contra-argumentar em defesa do direito daquele ser considerado “débil, sem autonomia, necessitando ser conduzida para não cometer erros” receber instrução como os homens, poder exercer funções na sociedade e na política e expressar opinião como eles.

“Seu objetivo era fazer com que os homens saíssem de sua ignorância em relação às mulheres e também que os exemplos e conselhos apresentados em suas obras pudessem servir de espelho para outras mulheres.” (Leite, posição 62 do Kindle)

Conheci de ontem para hoje Christine de Pizan, por meio da dissertação de mestrado de Lucimara Leite, publicada em livro, Christine de Pizan – uma resistência, pela Chiado Editora. Só posso dizer uma coisa: tô apaixonada por essa mulher! Ela foi uma pessoa corajosa e à frente de seu tempo!

Segundo Lucimara Leite, alguns pontos destacam Christine de Pizan em oposição aos autores da época. São eles:

1. Distingue as mulheres pela classe social e não pela castidade:

“A divisão da obra está estruturada na classificação social, e não pela castidade, como era comum nas obras escritas por homens (…) No livro, a autora aponta as virtudes apropriadas para cada classe e aquelas, por assim dizer, mais indicadas para todas as mulheres. Nesse fato residiria o verdadeiro tesouro da cidade das mulheres, sua classificação a partir de seu papel social, e não mais pela sua atribuição física de gerar. Christine escreve às mulheres do povo, casadas com mercadores, mestres, lavradores, solteiras que trabalham como empregadas e prostitutas. Não é a única a voltar-se para as pessoas simples, mas o faz usando uma linguagem de quem conhece de perto seu cotidiano. A descrição que ela faz do dia a dia dessas pessoas é um documento importante que temos desse período. Diferente dos autores masculinos que escrevem receitas de como os mais abastados devem agir com os mais humildes, ela descreve os trabalhos rotineiros dessas pessoas.”

2. Defende o direito de as viúvas gerirem seus bens:

“A autora escreve às viúvas e, apesar de não ter sido a única a fazê-lo, reserva a essas mulheres a posição de administradoras de seus bens. (…) Para a maioria dos tratados escritos por homens destinados às mulheres, não existia essa possibilidade de elas viverem sem uma tutela masculina.”

3. Defende a educação das mulheres como a dos homens para que elas ocupem na sociedade sua posição:

“O conhecimento e o ensino às mulheres eram para a escritora uma necessidade social. As mulheres deviam aprender a ler e escrever para ampliar a contribuição que já davam à sociedade. A aprendizagem da mulher não é ponto comum entre os autores homens. Alguns acreditam que elas não devem aprender, para não ler ou escrever coisas que comprometessem sua moral; outros pensam que deviam aprender exatamente para não cair em armadilhas. A questão é que, tanto para um grupo como para outro o ensino da mulher estava atrelado à moral. Ao contrário dessa querela, Christine acreditava que o conhecimento iria abrir as portas da sociedade para as mulheres, que elas iriam poder ocupar seu papel.”

4. Defende a paciência como virtude para a mulher:

“Quanto às virtudes apresentadas pela autora, acreditamos que a diferença nos textos de Christine esteja no ato de apresentar a paciência como uma das principais virtudes. A paciência era uma virtude muito cara às mulheres. (…) Possivelmente, a escritora prega essa virtude como uma maneira de tornar a vida menos dolorosa, para que com ela as mulheres pudessem aprender a viver com a angústia decorrente de uma vida sem autonomia.”

5. Prega a obediência como ato de sobrevivência:

“A obediência, virtude pregada por vários autores, foi colocada de modo diferente nos textos de Christine. Nos guias de educação escritos pelos homens, essa virtude pregada às mulheres se deve ao fato de serem consideradas inferiores, moral e intelectualmente, frágeis, débeis, precisando ser governadas para não praticar o mal. Já para a autora essa submissão é necessária para o próprio bem-estar da mulher, para sua integridade física. A obediência era pregada como uma forma de burlar a autoridade masculina e evitar os enfrentamentos que pudessem prejudicá-la.”

De acordo com a pesquisadora e o que me levou a me apaixonar por Christine de Pizan, foi que ela atuou como “escritora numa época em que, para nós, é difícil imaginar que existissem mulheres capazes de ter outra função além daquela determinada para seu sexo: gerar. Além disso, viveu da profissão de escritora. Foi uma escritora-mulher que ousou afirmar, no início do século XV, que a origem da desigualdade entre homens e mulheres é de fundo social, devido ao fato de as mulheres terem tido seu acesso à educação negado e possuírem apenas experiências domésticas. Para ela, esse não-acesso à educação e a falta de exercício na esfera pública é que determinavam a exclusão da mulher da sociedade.” (Leite, posição 88, no Kindle – grifo meu)

Não é uma leitura que flui em todos os capítulos porque o livro mantém a estrutura da dissertação acadêmica. Entretanto, quando estamos nas partes com passagens analisadas de Pizan e comparações com autores como Aristóteles, Sêneca, Ovídio entre outros, mergulhamos numa viagem ao passado desde a constituição do que é ser mulher na visão dos homens, aqueles que detinham a pena e contavam a História, numa construção de estereótipos e imaginários masculinos que nos limitaram a uma posição até hoje estigmatizada e rotulada.

“Já, quando lemos textos masculinos, a abordagem é muito mais detalhada, como se tivessem sido escritos para alguém débil. É de imaginar que uma mulher com acesso a livros, independente do tema, já tivesse o mínimo de conhecimento para entender um livro de exemplos. Talvez a ideia ainda presente por trás dos textos masculinos fosse a da necessidade de ter a mulher sob tutela, pois ela era considerada alguém com pouca inteligência, necessitando ser guiada.”

O triste é perceber que em pleno século XXI há grupos políticos e religiosos ressuscitando os “tratados de boas maneiras moralistas” à moda dos que existiram no passado. Estamos precisando de muitas Christine de Pizan atuando contra as Damares e discursos afins.

3 comentários

  1. Que legal! Que coragem e vigor intelectual da Christine se Pizan! Porque se hoje, qualquer texto “menos patriarcal”, já é atacado de todos os lados imagina no tempo dela! Fiquei curioso em saber como ele sobreviveu e não foi taxada de “bruxa”…

    Curtido por 1 pessoa

Deixe uma resposta para Tatiane Martins Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s