“Coisa mais linda” e os feminismos branco e negro

A primeira temporada da série brasileira “Coisa mais linda”, produzida pelo Netflix com sete episódios, se passa durante o ano de 1959, na cidade do Rio de Janeiro, com algumas pequenas passagens por São Paulo, visto que a primeira protagonista é de uma rica e influente família de fazendeiros dessa grande cidade brasileira. Abandonada e roubada pelo marido, Maria Luiza se descobre sozinha em um mundo no qual a mulher branca, de classe média, média-alta e alta, só existe debaixo do nome do pai ou do homem com quem se casa. Para enfrentar essa terrível e moralista engrenagem a que é submetida sem escolha, ela precisa abrir mão do conforto, do luxo, do nome, da família, do status… e se submeter aos juízos de valor hipócritas que a proíbem, inclusive, de frequentar ambientes mesmo tendo dinheiro para pagá-los porque não mais se encaixa nos valores tradicionais da moça “bela, recatada e do lar”.

A segunda protagonista, Adélia, negra, mãe solteira, doméstica, traz em seu papel, por sua vez, toda a realidade da oposição entre os sofrimentos por que passa em comparação aos sofrimentos de Maria Luiza. Desde o início, fica bem claro que ambas as mulheres, a branca e a negra, têm suas dores e agruras, comuns a uma sociedade machista. Entretanto, Adélia, além de lidar com isso, ainda sofre mais pelo fato de ser negra. Fica explícito que o racismo não é algo externo ou longe de nossas vidas ordinárias. Ele está entranhado no tratamento diário de pessoas comuns como eu ou você e precisa ser assumido e encarado para que haja mudanças concretas.

As outras duas mulheres que compõem o quarteto que protagoniza “Coisa mais linda”, Lígia e Thereza, nos permitem, cada uma ao seu jeito, vislumbrar outras discussões acerca das condições femininas numa sociedade patriarcal e machista. Lígia luta arduamente durante um bom tempo para anular seus sonhos e se convencer de que a sua felicidade está em ser esposa e mãe, à mercê dos sonhos e das exigências de seu marido. Thereza, embora independente, com um casamento mais aberto e sendo profissional atuante, sofre também as pressões sociais tanto em relação à família de seu marido que deseja enquadrá-la aos padrões da boa esposa recatada e reprimida, quanto em relação ao restrito e preconceituoso ambiente de trabalho para a mulher.

A série – com belos cenários e figurinos muito bem feitos para mergulharmos na época em que se passa a história – nos permite enxergar a sociedade de 60 anos atrás com suas desigualdades, conceitos e preconceitos, imposições e exigências em relação à mulher branca, à mulher negra, ao homem que sabe ter pulso forte… O problema é que não dá para ignorar que muitas dessas questões ainda hoje – já no final da segunda década do século XXI – estão vivas e se reproduzindo entre nós em discursos disfarçados de valores morais, valores cristãos, valorização da família tradicional etc.

Só para lembrar…

Faz pouquíssimo tempo que o elevador social dos edifícios residenciais foi liberado, por meio de lei, para os empregados domésticos (há duas cenas ótimas na série sobre isso). Mas esta semana saiu na coluna do Ancelmo Gois que moradores de um condomínio reclamaram do fato de babás terem cantado parabéns no espaço destinado ao lazer dos condôminos. (Não para de vir à minha cabeça a música “Elevador“, de Jorge Aragão)

Faz pouquíssimo tempo que a mulher divorciada não é rechaçada nem condenada a uma vida à margem da sociedade, mas ainda se ouve em comentários ou piadas que ela não soube ser boa esposa, boa mãe, não foi competente para segurar o marido etc.

No mapa da violência, matéria de jornal apresentando dados estatísticos, vimos esta semana que nos últimos 10 anos aumentou o número de mulheres mortas por armas de fogo. Veja: feminicídio e feminicídio.

Ainda hoje vemos discussões acaloradas nas redes sociais em que se percebe um discurso de culpabilizar a vítima de estupro pelas roupas que veste ou o ambiente em que se encontra.

Faz pouquíssimo tempo que direitos trabalhistas comuns a outras categorias chegaram como direitos também para as domésticas. Há uma cena na série tão chocante sobre isso, mas lembro dessas relações de exploração sem sequer horário de trabalho na minha infância…

E por aí vai…

Abrir negócios, gerenciar seus bens, seu próprio dinheiro, andar na rua sozinha a qualquer hora, namorar e/ou casar com quem quiser, terminar o namoro ou se separar quando quiser… são algumas das conquistas a duras penas da mulher branca.

Poder entrar e transitar em qualquer ambiente, não ser vista como fácil, desfrutável, poder assumir funções, papéis sociais e posições restritas por tanto tempo apenas às mulheres brancas… são algumas das lutas, ainda hoje, das mulheres negras.

É interessante ver que, na série, as quatro protagonistas passam por problemas distintos, mas todos eles têm uma causa central: o fato de serem mulheres. Adélia, entretanto, é a personagem que descortina um outro ponto mais profundo e que, de certa forma, repito aqui no meu texto por considerá-lo de imensa importância. Mesmo na união dessas mulheres em apoio mútuo para sobreviverem nesse mundo masculino, há nelas próprias um racismo entranhado, arraigado, que, às vezes, aparece como se fosse mais forte do que a racionalidade pode controlar. Conseguir enxergar isso em nossas pequenas reações é fundamental. Só com a consciência real do preconceito que reproduzimos é que podemos lutar contra ele.

Ah! Não posso esquecer de dizer uma coisa fundamental: a série tem bossa nova, samba e jazz de elevar a alma.

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