A morte de Ivan Ilitchi, Leon Tolstoi

Uma novela para se ler numa tarde ou numa madrugada de insônia, como foi o meu caso. Ultimamente tenho viajado nos livros meio como uma náufraga em alto mar que pega o que aparece pela frente com uma sede que não lembro ter sentido antes dessa forma. É verdade que tenho alguns interesses e metas, mas, às vezes, sinto que os livros estão me encontrando mais do que eu a eles.

Esse foi bem o caso com A morte de Ivan Ilitchi, de Leon Tolstoi. Estava prosseguindo a minha meta de ler escritoras, quando me deparei com o gigante Tolstoi me pedindo para lê-lo. Peguei-o ontem à noite, comecei a leitura, dormi, acordei de madrugada e o terminei.

Curto, rápido e sem um protagonista cativante, A morte de Ivan Ilitchi nos mostra de forma contundente o sofrido e rápido fim de um homem comum, ou, pela perspectiva não de quem fica, mas do próprio moribundo, o longo e agonizante fim de um ser humano como eu ou você.

“Morrera aos quarenta a cinco anos de idade, como juiz desmbargador.”

Esse tema mexe demais comigo e não é de agora que venho pensando na morte protelada e indigna a que muitas vezes somos submetidos com a parafernália médica que pode manter uma sobrevida. Sou a favor da eutanásia e acho que da mesma forma que a medicina pode curar, ela também pode abrandar o sofrimento quando nada mais há pra se fazer.

Mas voltando para Ivan Ilitchi, personagem do meio do século XIX, a doença não diagnosticada nem declarada pelo narrador onisciente, hoje, seria facilmente chamada de câncer, um câncer devastador. A história mostra de forma breve – é uma novela que não chega a cem páginas – o protagonista desde a sua origem até seu casamento, nascimento dos filhos, progressão profissional e social.

De repente, porém, algo muda:

“Nas ruas tudo parecia triste a Ivan Ilitch. Os cocheiros eram tristes, eram tristes as casas, os transeuntes, tristes as lojas.”

Ele se descobre doente e com a morte batendo à sua porta:

“«O apêndice! O rim! Não é uma questão de apêndice, nem de rim, mas de vida e… de morte. Sim, tinha vida, e agora a vida passa, passa e eu não a posso segurar. Sim, para quê enganar-me?”

E o sentido da vida muda, novas reflexões surgem:

“«Quando eu não existir, o que existirá? Não existirá nada. Pois onde estarei eu quando não existir? Será isso morrer? Não, não quero.»”

E o medo do desconhecido o atormenta:

“Ivan Ilitch via que estava a morrer, e vivia em constante desespero. No fundo da sua alma sabia que estava a morrer, mas não só não estava acostumado a isso como simplesmente não compreendia, não podia compreender de modo algum.”

.

“«Sempre e para sempre a mesma coisa, sempre estes dias e estas noites intermináveis. Se ao menos isso acontecesse mais depressa. Mais depressa o quê? A morte, as trevas. Não, não. Tudo menos a morte!»”

E surge o sentimento de solidão:

“Além dessa mentira, ou por causa dela, o que mais atormentava Ivan Ilitch era que ninguém tivesse pena dele como ele queria que tivessem: em certos momentos, depois de sofrimentos prolongados, o que Ivan Ilitch mais queria, embora tivesse vergonha de o reconhecer, era que alguém tivesse pena dele como de uma criancinha doente. Queria que o acarinhassem, que o beijassem, chorassem por ele, como quem acaricia e consola as crianças. Sabia que era um funcionário importante, que tinha a barba grisalha e que portanto isso era impossível; mas mesmo assim ansiava por isso.”

Nos últimos anos tive o desprazer de viver algumas perdas fortes em minha vida. De amigos queridos a meu pai, há apenas 9 meses, todos viveram momentos como os narrados nesta novela e eu os presenciei, enxergando, em seus olhos, ora o desespero, ora a dor lancinante, ora a solidão.

“Era de manhã. Só sabia que era de manhã porque Guerássim saiu e o criado Piotr chegou, apagou as velas, abriu uma das cortinas e começou a fazer arrumações em silêncio. Quer fosse de manhã ou de tarde, sexta-feira ou domingo, era tudo igual, era sempre a mesma coisa: aquela dor surda, pungente, que não cessava nem por um instante; a consciência de que a vida acabava inexoravelmente mas ainda não acabara; a aproximação daquela mesma morte sempre horrível e odiada que era a única realidade, e sempre aquela mesma mentira. Que importância tinham assim os dias, as semanas e as horas do dia?”

Amor e ódio se misturam; gratidão e raiva também.

“Ivan Ilitch olha para ela, examina-a e recrimina-a, mentalmente, pela brancura e pelo asseio das suas mãos gorduchas e do pescoço, pelo lustro dos cabelos e pelo brilho dos olhos cheios de vida. Odeia-a com todas as forças da sua alma. E o contacto dela fá-lo sofrer um acesso de raiva.”

Percebi, porém, que a presença calma e serena de amigos e familiares se faz necessária mesmo que o moribundo não demonstre se dar conta disso.

“Quando o sacerdote chegou e o ouviu em confissão, ele acalmou-se, sentiu como que um alívio das suas dúvidas e em consequência disso dos sofrimentos, e teve um momento de esperança. De novo começou a pensar no apêndice e na possibilidade de cura. Comungou com lágrimas nos olhos.”

.

“Abriu os olhos e olhou para o filho. Sentiu pena dele. A mulher aproximou-se. Ele olhou-a. Ela olhava para ele com a boca aberta e lágrimas no nariz e na face, olhava-o com uma expressão de desespero. Sentiu pena dela. «Sim, eu faço-os sofrer», pensou. «Têm pena, mas será melhor para eles quando eu morrer.» Queria dizer isto, mas não tinha forças para falar. «De resto, para quê falar, é preciso fazer», pensou. Com o olhar indicou à mulher o filho, e disse: – Leva-o daqui… faz-lhe pena… e a ti… – Queria ainda dizer «perdão» mas disse «permissão» e, já incapaz de se corrigir, agitou a mão sabendo que seria entendido por aquele que o devia entender. E de súbito tornou-se-lhe claro que aquilo que o afligia e não o largava lhe saía de repente tudo de uma vez, e por dois lados, por dez lados, por todos os lados. Tinha pena deles, era preciso agir de modo que não sofressem. Livrá-los a eles e a si mesmo daqueles sofrimentos.

Porque, no fim, somos todos solitários. Chegamos sozinhos com o choro que nos abre os pulmões e partimos sozinhos no nosso particular apagar das luzes.

Palavras que definem esta obra para mim?

Aflitiva, dolorosa, arrebatadora, penosa.

Mas vale demais a leitura.

Obs.: Não indiquei as páginas das citações porque li no Kindle.

2 comentários

  1. Li esse livro a pouco tempo e desde então tenho procurado resenhas sobre ele, busco a opinião das pessoas, busco saber da experiência delas com essa obra. Foi assim que cheguei aqui. Obrigada por ter compartilhado.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s