Como você hoje, com 25, 35, 45 ou 55 anos, está se preparando para a velhice?

Tenho andado rodeada de idosos. Até julho do ano passado, antes de meu pai falecer, houve um período longo de luta em minha casa com ele. Depois de seu falecimento, assumi minha mãe, bastante idosa, mas ainda bem ativa, para morar de vez conosco.

Em dezembro último, meu tio de 88 anos, irmão de mamãe, veio passar uns dias aqui no Rio. Levou, porém, um tombo na piscina e quebrou o pé. Acabou ficando hospedado em minha casa, com cadeira de rodas, cadeira higiênica e outros apetrechos por mais de dois meses. Não poderia deixá-lo desamparado aqui se os filhos moram em outras cidades.

Neste carnaval, enquanto minhas cunhadas caíram na estrada, eu e meu marido ficamos presos em nossa casa sem poder viajar nem sair muito porque minha sogra, aos 91 anos de idade, não pode mais ficar na casa dela sozinha e ainda não aceita uma acompanhante.

Resultado: rotinas e liberdades quebradas; vida pessoal e privada bastante modificada.

Toda essa descrição vem junto com uma questão que tenho conversado bastante com meu marido: como estamos nos preparando para a nossa velhice? Principalmente porque não queremos dar trabalho a nossos filhos e acreditamos que a independência é uma questão de respeito e de dignidade.

Quando essa pergunta é feita às pessoas, normalmente se pensa na saúde física e mental. Musculação, alimentos saudáveis, manutenção de um corpo magro e de uma mente ativa são fundamentais. Entretanto, há outras questões importantíssimas que devem ser pensadas desde cedo.

Cada ano que passa estamos vivendo mais e mais e precisamos de uma estrutura. Se, no passado, as famílias eram grandes, moravam próximas e uns ajudavam os outros, além de a velhice não ser tão longa com a medicina prolongando ainda mais a sobrevida de doentes, hoje, cada vez com menos filhos, mais trabalho, inúmeras demandas, distâncias maiores etc., precisamos realmente repensar como estão ficando os idosos e como vamos também ficar.

Falando de uma posição que sei privilegiada no país em que habitamos, penso, na realidade desse meu mundo, nas questões, por exemplo, referentes 1) à estrutura da casa para suportar as demandas da vida idosa com limitações, 2) à independência de ir e vir com a opção de contratar acompanhantes se necessário, e 3) ao sentido mesmo da vida do velho.

Com relação à estrutura da casa, percebi, em 2009, quando quebrei os dois pés e fiquei três meses em cadeira de rodas, que a gente não observa pequenas coisas que podem fazer grande diferença. Batentes para entrar no banheiro ou no box; ausência de corrimão/apoio; portais estreitos na casa inteira que não permitem a passagem de cadeira de rodas; tapetes soltos… tudo isso são exemplos de enormes empecilhos ou perigos para os velhos com ou sem limitações. Além disso, ausência de tomadas em pontos variados, interruptores pouco acessíveis, janelas difíceis de abrir e fechar, persianas… são pontos que precisam ser observados desde cedo porque, de repente, acontece algo e somos surpreendidos pelas necessidades e limitações.

O segundo ponto, que é a independência de ir e vir, acredito que vai melhorar cada vez mais com o acesso a mais tecnologia para segurança e identificação da localização do idoso se necessário. Entretanto, isso exige um preparo financeiro inacessível para a maioria, e bastante pesado para uma classe média como eu. Ainda mais se as novas regras de previdência cortarem parte da pensão entre marido e mulher como querem fazer. É preciso aprender desde cedo a poupar para a velhice.

O terceiro ponto que destaquei tem a ver com o que fazemos desde agora para nós mesmos enquanto pessoas: quem somos? O que nos faz ser o que somos? O que nos mantém vivos e dá sentido à nossa vida? Acho que comecei a escrever esse texto hoje porque, no café da manhã que tomei com mamãe ontem, ela estava meio tristonha me falando que havia chorado muito à noite pensando na vida dela. Minha mãe sempre foi aquela mulher extremamente ativa cujo sentido da vida era cuidar dos outros: cuidou do marido e dos filhos a vida inteira, depois dos netos, mas papai já faleceu e o neto caçula, meu filho, já tem 20 anos. A verdade é que o tempo passa, todos crescem, partem e… o que ela fez para cuidar de si mesma?

Essa é outra pergunta que devemos nos fazer: o que estou fazendo para cuidar de mim mesma?

Mamãe não tem o costume de ler por prazer, não costura, não tem o hábito de ver muita TV, não tem mais amigos para sair com independência e ir a um cinema, por exemplo, pouco conversa…

Ao contrário dela – fazendo uma comparação comigo, porque é isso que vem me levando a refletir sobre a velhice -, amo ver filmes, ler livros, escrever sobre várias coisas distintas, simplesmente escrever. Minha vida pessoal e profissional sempre foi tão importante quanto a maternidade e o casamento. Tudo isso me faz viva, ativa, feliz. E eu posso estar rodeada dos que amo ou ficar horas e horas sozinha e não me sentir só. Posso também sair e caminhar sem rumo e me sentir plena. Mas eu já tenho o hábito de fazer essas coisas, então me parece fácil continuar caso eu esteja saudável como ela. Mas e quem não tem o hábito de refletir sobre o que vê, quem não gosta de ler, quem não se encontra bem só consigo mesmo, quem nunca teve tempo de olhar para si e de ter uma vida pessoal ativa?

Foi por isso que perguntei no título como você hoje, com 25, 35, 45 ou 55 anos, está se preparando para a velhice. Da mesma forma que temos de pensar na alimentação, na forma física, na poupança (falei pouco sobre isso antes mas é fundamental!)… temos também de nos preparar para uma vida mais pacata, mas com valor e sentido.

Envelhecer com dignidade é difícil, principalmente quando o Estado ignora seus idosos. E só tende a piorar…

Coincidentemente acabei de ler sobre o idoso no jornal O Globo de hoje. Solidão, desigualdade social e mau estado de abrigos afetam atendimento a idosos.

Nossa, e agora li isto: Novos caminhos para o velho.

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