Assunto de família (cinema)

Na 3a feira, assisti ao também indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, Assunto de família. Fiquei encantada com a temática.

O que é uma família? Qual o conceito de família?

Para muitas pessoas, principalmente as mais conservadoras, família tem a ver com a relação criada entre um homem e uma mulher que se casam e, juntos, têm filhos. Isso, no entato, não assegura a felicidade, o amor, muito menos o respeito.

A família constituída pela avó Hatsue (Kirin Kiki) – que recebe em sua casa a neta Aki (Mayu Matsuoka); o casal Osamu (Lily Franky) e Nobuyo (Sakura Andô), não muito ajustados em sua relação; o garoto Shota (Jyo Kairi); e, por último, a menina Yuri (Miyo Sasaki), que percebem ser maltratada pelos pais – lembrou-me a constituição da família de Valter Hugo Mãe, também desajustada e repleta de carências, mas que, a seu jeito, aprende a amar, em o filho de mil homens. Lógico que não há nenhum Crisóstomo aqui. A semelhança está na constituição da família torta e carente de tudo.

A história das personagens do diretor Hirokazu Koreeda, entretanto é um verdadeiro Assunto de família, repleta de defeitos como qualquer uma, como a minha ou a de quem me lê aqui. Apesar disso, com todos os defeitos e carências econômicas e culturais, vemos que, mesmo que de forma torta e até moralmente errada em vários aspectos, há amor nesse pequeno núcleo japonês.

Sem entrar em detalhes de produção cinematográfica porque – sempre aviso – não é a minha praia, o filme me tocou por alguns aspectos.

Primeiro, ele mostra um Japão bem simples, com pessoas comuns, muito respeitosas em seus cumprimentos tradicionais, mas que também roubam, passam a perna nos outros, chantageiam etc. etc. etc. Parece bobagem, mas adoro ver essas desmistificações da “perfeição pela tradição” acessíveis (será que veem?!) ao público que adora idealizar em seus discursos o estrangeiro e criticar a si próprio, o brasileiro, com espírito de vira-lata. Via tanto isso nas redes sociais, na fala de parentes e amigos, que me irritava.

Koreeda também mostra a pobreza de um pais de primeiríssimo mundo e as inúmeras necessidades básicas por que passam homens e mulheres, velhos e crianças. Além de destacar que nem toda criança tem acesso irrestrito à educação e à segurança.

Outra coisa que me chamou a atenção é a frieza da justiça e a falta de um acompanhamento e avaliação concreta. Eles explicitam que, para uma criança, é sempre melhor estar com os pais. Será mesmo?! A situação da pequena Yuri levanta esse questionamento.

E uma última questão que quero destacar tem a ver com os julgamentos que fazemos do(s) outro(s) a partir do nosso “umbigo”, isto é, do nosso ponto de vista ou, ainda mais claro, da pequena vista que temos a partir do nosso restritíssimo ponto.

Osamu assume Shota como seu filho e o cria da melhor forma que sabe fazer com todos os seus erros, falhas, limitações e ignorância. Perguntado por que ensinava o menino a roubar, ele responde que era a única coisa que sabia fazer, era só o que sabia ensinar. Na hora em que ouvi isso, subiu um nó em minha garganta.

Destaco exatamente essa fala porque, apesar de ensinar algo totalmente errado e inapropriado para uma criança, ficou bem claro ao longo do filme que havia um grande amor e cuidado na relação de pai para filho. O tempo que Osamu dedicava a Shota, dando-lhe carinho e atenção, fez-me pensar que, se ele não vivesse uma vida tão miserável sem acesso a um mínimo básico de dignidade, se dele não tivesse sido tirado o direito a uma educação de qualidade, talvez fosse um pai que não ensinasse o filho a roubar.

Volto, então, ao juízo de valor pelo ponto de vista… Sempre tenho a sensação – quando leio em jornais casos de jovens infratores, pais, normalmente negros e pobres já na estrutura preconceituosa que se prolifera, e seus filhos – de que, junto ao julgamento do erro (o roubo em si, ensinar a roubar) a sociedade julga e condena o pobre que é levado a isso como um ser desumano, cruel, sem amor, quase como se fosse um animal, um monstro sem amor algum para ter filhos… Mas a literatura e a sétima arte nos permitem enxergar outra realidade: são, na maioria das vezes, pessoas muito simples e comuns que estão lutando pela sobrevivência com as pobres armas e os poucos meios/recursos que têm.

Sei que pode parecer louca, estranha ou meio sem pé nem cabeça essa minha reflexão, mas a verdade é que o maior culpado disso tudo deve ser sempre o Estado que não dá a todos oportunidades mínimas dignas de vivência. Sim, mínima de vivência, que deve ser mais do que a mera e também indigna sobrevivência.

Os pobres, miseráveis, carentes de tudo também são gente que sente como a gente. Eles também amam e cuidam.

Desculpem, mais uma vez, se fujo do filme para falar da vida, da nossa vida a partir do que vejo e me faz pensar. Pensar e sofrer, pensar e chorar pela dor de tanta gente… Porque quando vejo um político corrupto e mal-intencionado ser acalentado por um pai, também político e corrupto, que o protege dizendo “meu garoto”, “deixem o garoto fora disso” e passa a mão na cabeça do filhinho de 40 anos, mas, de outro lado, também vejo os filhos de pretos pobres levando porrada na nuca (e são quase todos pretos) e aos quase brancos pobres como pretos, como é que pretos, pobres e mulatos e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados, não consigo não me indignar.

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