Cafarnaum (é aqui!)

Como é viver à margem da sociedade?

Como é viver totalmente à margem da sociedade sem ter perspectiva alguma de sair desse buraco?

Como é ter um bom coração, sonhar com uma vida diferente daquela que conhece, mas não ter uma luzinha sequer no fim do túnel?

Como é querer ser um homem de bem se seu “destino” já foi traçado por uma sociedade totalmente excludente e fechada?

Em Cafarnaum, vemos um Líbano que pode ser muito bem o nosso país; e uma Beirute não muito distante da realidade de favelas do Rio de Janeiro ou São Paulo. Vemos também um menino – que poderia ser qualquer um de nossos brasileirinhos – inteligente, pró-ativo, trabalhador, amoroso, zeloso com os irmãos, que sonha poder estudar como as outras crianças, mas que não consegue nada além do que lutar, um dia após o outro, pela sobrevivência básica.

O que vemos de verdade nesse belíssimo filme é que as realidades de vida são muito diferentes para que os que se consideram “gente de bem”, aquelas pessoas “limpinhas e moralmente decentes”, tenham o direito de julgar e condenar, “em nome da moral e dos bons costumes”, homens, mulheres ou crianças a partir de seu umbigo, de sua perspectiva (tão limitada!).

Crianças largadas, exploradas, usadas, abandonadas, criadas “a deus dará” não podem responder às demandas sociais da mesma forma que crianças criadas a pão de ló e amor. A vida não tem uma dobra só. Ela é bem complexa para leituras tão lineares serem a resposta de tudo.

Sei que não estou falando diretamente do filme, enquanto produção cinematográfica, mas estou falando daquilo que o filme pode proporcionar a quem o vê: uma reflexão consistente de uma realidade tão distante daqueles que têm o poder de decidir, de questionar, de lutar por ideias e leis. Isto é, pode proporcionar, simplesmente, empatia.

A história de vida de Zain, personagem com o mesmo nome do ator-mirim, é a história de vida de muitas crianças que nascem da irresponsabilidade de pais que, por sua vez, reproduzem a miséria de vida e de alma com que lidaram a vida inteira. Acho que antes de gritar abobrinhas de “meninas vestem rosa e meninos vestem azul” ou de que o brasileiro é um “canibal”, que não sabe se comportar quando viaja etc., nossos políticos precisam enxergar muito além de uma visão classista, deturpada. Precisam enxergar os Zain, as Nadine, as Rahil e os Yonas que estão abandonados pelo poder público em seu mínimo direito à dignidade.

Uma pequena observação: a interação de Zain com o bebê Yonas, na atuação, é algo indescritível.

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