Não se preocupe comigo – Marcelo Yuka

Um texto puxa outro que puxa outro que puxa outro…

Sem obrigações de cumprir prazos, escrever artigo, estudar algo específico, correr contra o tempo… cheguei a uma época de minha vida em que posso ler qualquer coisa que queira, sem exigências nem preconceitos, muito menos cobranças sociais (vc vai ler isso?!…).

Já vinha com essa livre sensação há algum tempo e minha liberdade foi ratificada por testemunhos da Eliane Brum, nos dois livros que dela li este mês. Neles, a repórter e escritora que admiro afirmou, em situações distintas, que ela lê de tudo sem preconceito algum.

Então, Brum acendeu mais fortemente minha luzinha verde do f…-se, intelectuais; e Martha Medeiros, em sua crônica “Stand-up: levante-se”, na Revista Ela, d’O Globo de domingo, 03/02/2019, me cativou para ler a história de Marcelo Yuka, contada por Bruno Levinson, produtor musical, roteirista e poeta (ainda não li poemas dele). Acho que não teria lido esse livro em outra circunstância…

O livro é meio pauleira. Principalmente porque o autor resolveu manter a narrativa de Yuka (por incrível que pareça uma corruptela ocasional de “uruca”) em primeira pessoa. E lê-lo – isto é, mergulhar na história dele, com dores, sonhos interrompidos, medos, angústias e percepção de que não teria muito tempo de vida -, a menos de um mês após a sua morte (ele faleceu em 18 de janeiro), foi punk.

Quando penso em mim mais velho, isso não é suficiente para dizer que tenho pouco tempo. Quando olho os meus amigos mais velhos, percebo que não tenho tanto tempo assim. Acabei optando por viver no risco. (Retirado do último capítulo da edição digital Kindle)

Algumas coisas me chamaram muita atenção. Uma delas tem a ver com a transformação de Yuka pela leitura (isso sempre se destaca aos meus olhos!). Usando as palavras dele sobre toda as suas conquistas (vir para o Rio estudar, fazer faculdade, montar O Rappa…), foi uma curva na história. A leitura, portanto, foi uma curva em sua história:

Aprendi a ler e a escrever muito cedo. Mas só na faculdade saquei a importância de ler como forma de defesa. No ginásio me obrigaram a ler Dom Casmurro e não gostei. Eram dois ou três livros por ano e depois uma prova. Até hoje não li Machado de Assis, mesmo sabendo que é importante – fiquei com esse trauma da escola. Eu e um monte de gente! Deveriam indicar outros livros para alunos tão jovens.

Aos 16, comecei a ter acesso a textos de sociologia e antropologia. Na primeira vez não entendi nada – nem o português, porque era uma linguagem acadêmica. Não tinha ideia do que Umberto Eco estava falando. Até mergulhar nesses textos. Não era obrigação nem algo para o futuro. Era para o meu presente. Foi uma evolução. Aprendi a tirar proveito da leitura. Mantive, em sacos amarrados, os textos que xerocava. Precisava tê-los fisicamente.

Faço o mesmo com os livros. Mesmo tendo lido boa parte dos que tenho, prefiro mantê-los por perto, saber que, em uma madrugada, podem ser uma referência e vão estar lá. Ler foi libertador. A leitura pode ser amiga e companheira. Ela mudou até minha maneira de falar. Tomava uma dura da polícia e percebia que o guarda me respeitava mais por eu ter outra forma de me expressar. Isso garantia – literalmente – minha libertação.

Fui botando em prática o que os textos me ensinavam. Lia Nietzsche e Baudelaire, que têm, em geral, uma visão cruel da humanidade. Eles me confortavam. Estava meio deprimido, então lia autores de acordo com o que eu sentia e que, apesar do desconforto que causavam, não tinham um mau entendimento da vida. Era uma sensação ótima constatar que eu não estava sozinho – um sujeito, um século atrás, tinha questionado as mesmas coisas que eu sentia no meu dia a dia.

Errados estavam os outros! Achei O capital chato para caralho, mas percebi que ganhar dinheiro dessa maneira que conhecíamos não era a única opção. Pensar sobre isso, entender que existiam formas diferentes de viver, era mais uma vez libertador. Nunca acreditei que o comunismo ou o socialismo fossem uma opção. Apenas sabia que esse capitalismo que a gente vive, esse sistema econômico, não é o ideal. Esses questionamentos não eram partilhados por meus amigos. Suas ambições se limitavam a trabalhar para comprar um carro, juntar grana e ter uma mulher gostosa com cabelo pintado de louro. O sentido era esse.

Com os livros, me dei conta de que não tinha que seguir assim. Desde a infância sofria com a diferença brutal de atitudes e por me sentir diferente. Ninguém havia me falado que o pobre tinha menos poder, que o preto tinha menos força na sociedade, que o pobre tinha que trabalhar mais para o rico ganhar mais. Ninguém tinha me falado, a não ser os livros. Os livros e a rua. Ninguém tinha me explicado por que o preto é visto de uma forma diferente. Tudo isso me chocou no momento em que eu construía meus valores. (Capítulo “Outsider”)

Comecei a enxergar a importância do mestre ao observar um dos meus professores, o Ivan Proença, que deixou de ser militar na ditadura e se tornou professor. Mestre é aquele que tem alguma coisa para transmitir. Eu os procuro até hoje, Mestre não precisa ser mais velho, só tem que ter algo a ensinar. (Capítulo “Copacabana um mar de gente”)

Completando seu desenvolvimento como leitor, sua percepção sobre o mundo foi se tornando prática na visão da sociedade, a percepção da desigualdade e o sonho de fazer a diferença para diminuir as diferenças.

Há pouco tempo, meu pai me lembrou do dia da morte do Marcinho VP. Soube pelo rádio e chorei. Mas pensei: estou chorando por um criminoso, por um bandido, por alguém que põe em prática tudo aquilo em que eu não acredito. Será que eu choraria pelo Carlinhos Cachoeira? Pelo Sarney? Provavelmente não. Eu chorei ali mais pelo estrago. O cara tinha tanto talento. Mataram-no, jogaram o corpo em uma lata de lixo com uma placa nas costas: “Bandido não lê.” Em última análise, não estava chorando por um bandido, estava chorando pelo desperdício. Entendo que o tráfico é uma das pontas mais cruéis do sistema. Ali não tem irmão, não tem porra nenhuma. É o negócio pelo negócio: não fica nada. Os traficantes, os soldados do tráfico, não têm esse entendimento. Eles são capturados e entram nessa vida pela noção de poder, pelo ego, pelo dinheiro. O cara não tem nem como usufruir o que ganha. Se ele rouba a moto mais foda, tem que ficar rodando tipo autorama sem sair do morro. É a sensação de poder. Essa é a grande mentira que o capitalismo prega: você será amado se tiver determinados bens. (Capítulo “Eu tenho fé como Forrest Gump”)

Outro ponto belíssimo foi a sua percepção sobre a mulher. Ele não era fiel, não valorizava integralmente quem estava do seu lado, mas, com a dependência de cadeirante após ter sido cravejado com nove tiros em assalto, em 09 de novembro de 2000, foi percebendo como as mulheres são mais dóceis, mais atuantes e menos egoístas ou, até mesmo, menos preconceituosas:

Se existe uma coisa que aprendi na cadeira de rodas foi amar a mulher. Eu amo a mulher, o ser mulher. Eu acho muito mais especial, é extremamente bonito. Mulher é capaz de ir para um lugar que a gente não vai. (…) É bem mais fácil para o homem, pois a mulher é bem mais tolerante. Difícil um homem ficar com uma cadeirante. (Capítulo “‘Nunca mais’ e ‘para sempre'”)

Enfim, essa leitura, sem nenhum pretexto ou expectativa, mexeu bastante comigo.

Você tem duas opções na vida: aprender pelo amor ou pela dor. A sabedoria do amor não é um só sentimento. (Capítulo “No jogo da vida eu tenho rabo de largatixa”)

YUKA, Marcelo. Não se preocupe comigo. Marcelo Yuka, Bruno Levinson; Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

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