Número Zero – Umberto Eco

Para dar uma pausa em Valter Hugo Mãe e me preparar para mergulhar no último romance que tenho dele, resolvi mudar totalmente de estilo. Por isso peguei Número zero, de Umberto Eco, primeiro livro de ficção que leio do autor.

Sendo bem direta, não me encantei tanto assim como esperava. Afinal, o nome Umberto Eco já gera expectativa, mesmo sem querer. Apesar disso, a narrativa – embora, em certas partes muito descritivas, arrastada – desenvolve pontos bem interessantes que, juro!, remetem a questões que fazem todo sentido hoje para nós aqui no Brasil – mesmo que a ironia deixada pelo autor, ao final, já pareça estereotipada demais: “E só esperar: depois de se tornar Terceiro Mundo de uma vez por todas, o nosso país será plenamente viável, como se tudo fosse Copacabana a mulher é rainha a mulher é soberana”.

O título faz referência a um jargão jornalístico. Número Zero é o nome que se dá a um periódico produzido para fazer uma espécie de testagem antes de o jornal ser produzido para entrar em circulação. Entretanto, o objetivo dessa produção no livro é muito maior. Seriam 12 números zero, isto é, um ano de trabalho até ajustar os pontos e objetivos, nada escrupulosos, para se chegar à primeira e real tiragem.

Dentre os pontos fortes do romance, o que mais se destaca é a crítica ao objetivo e ao modo de construção dos jornais com a discussão do que é, de fato, verdade. Só acho que a forma como Eco escolheu para nos mostrar isso – por meio da narrativa de uma investigação baseada em uma teoria da conspiração que envolve Mussolini, fascismo, Vaticano… – fez com que a leitura ficasse cansativa e arrastada. (Nossa! Quem sou eu pra achar algo negativo na obra de Eco?! Muito provavelmente me falta conhecimento sobre a história italiana, desde Mussolini até Berlusconi, para a leitura fluir.)

Não são as notícias que fazem o jornal, e sim o jornal que faz as notícias. E saber pôr juntas quatro notícias diferentes significa propor uma quinta notícia. (Cap. V)

(…) se me permite, isso me parece, como dizer, uma cafagestada. (…) Insinuar não significa dizer algo preciso, serve só para lançar uma sombra de suspeita sobre o desmentidor. (Cap. V)

– Está dizendo que, para cada artigo, vamos precisar verificar se é do agrado do Comendador? – perguntou Cambria, como sempre especializado em perguntas idiotas.

– Só pode ser assim – respondeu Simei -, ele é o nosso acionista de referência, como se costuma dizer. (Cap. VI)

A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias. (Cap. XV)

Não se pode passar em branco, porém, a crítica mordaz à manipulação de informação, ao sensacionalismo barato da imprensa e ao leitor acrítico.

(…) os nossos (leitores) terão mais de cinquenta anos, serão bons e honestos burgueses que desejam a lei e a ordem, mas adoram fofocas e revelações sobre várias formas de desordem. Partiremos do princípio de que não são aquilo que se costuma chamar de leitor assíduo, aliás, grande parte deles não deve ter nem livro em casa, mas, quando necessário, falaremos do grande romance que está vendendo milhões de exemplares em todo o mundo. O nosso leitor não lê livros (…) (Cap. III)

Portanto, todas as nossas indiscrições terão gosto de coisa inédita, surpreendente, ouso dizer oracular. (Cap. III)

De uma “não-notícia” cavamos uma notícia. (Cap. XI)

Queria só destacar mais dois pontos que me chamaram atenção logo no início do livro:

O primeiro diz respeito à apresentação da sociedade da época e à natureza das profissões sem grande exigência de formação. Embora a história acabe nos mostrando que a falta de uma formação consistente leve aqueles sete personagens a uma situação de humilhação profissional, ainda estamos numa época em que o amadorismo tem espaço. Talvez isso tenha me chamado atenção por causa do livro de Harari que estou também lendo…

Nunca me formei porque sabia alemão. (…) Na época, saber alemão já era uma profissão. Liam-se e traduziam-se livros que os outros não entendiam (livros que então eram considerados importantes), e recebia-se mais para traduzir do francês e até do inglês. Hoje acho que acontece o mesmo com quem sabe chinês ou russo. (Cap. I)

O segundo ponto a destacar são as frases de efeito que trazem alguma reflexão, mas que carregam um jeito de autoajuda que mais detona do que ajuda:

E quem vive cultivando esperanças impossíveis já é um perdedor. E, quando percebe isso, aí sim se entrega. (Cap. I)

Os perdedores, assim como os autodidatas, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, e quem quiser vencer deverá saber uma única coisa e não perder tempo sabendo todas, o prazer da erudição é reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, menos coisas deram certo para ela. (Cap. I)

E, para encerrar, dou-me o direito de levantar uma hipótese mesmo sem conhecer ainda bem o autor. Talvez, o maior objetivo de Eco, neste livro que acabou sendo seu último romance (publicado em 2015; ele morreu de câncer, aos 84 anos, em 2016), tenha sido o de deixar-nos uma pulga bem incômoda atrás da orelha sobre as verdades que nos são apresentadas:

Tinha perdido todas as certezas, a não ser a de que sempre há alguém às nossas costas, enganando. (Cap. III)

Desconfiança nunca é exagero. Desconfiar, desconfiar sempre, só assim se encontra a verdade. (Cap. III)

E mais duas para a cara de pau do Brasil atual…

É verdade, nunca entendi se essa moda de pedir desculpas é sinal de um surto de humildade ou de puro descaramento: você faz algo que não devia fazer depois pede desculpas e lava as mãos. (Cap. IX)

Percebam que hoje, para contra-atacar uma acusação não é necessário provar o contrário, basta deslegitimar o acusador. (Cap. XI)

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