O remorso de baltazar serapião – Valter Hugo Mãe

Nossa! Estou arrasada! Destruída! Totalmente remexida! Realmente, ler Valter Hugo Mãe não é para qualquer leitor nem é para qualquer estômago. É devastador, mas essa devastação tem gosto de quero muito mais.

Foi o remorso de baltazar serapião que levou o autor a receber o Prêmio Literário José Saramago, entregue pelo próprio Saramago, em 30 de outubro de 2007, quando, em discurso, disse que Hugo Mãe é um tsunami, que subverte a gramática, que ousa na sintaxe e na morfologia, e que esse livro é uma revolução.

A história se passa na Idade Média, mas representa muito bem homens dominadores que ainda se fazem presentes em relações desiguais em nossa sociedade hoje. O narrador-personagem protagonista, que dá nome ao livro, é um homem preconceituoso, machista, que repete em sua vida pessoal o que aprendeu com seu pai, na teoria e na prática, mesmo conhecendo todo o sofrimento de sua mãe. O livro dói! O livro dói uma dor insuportavelmente dolorida, sofrida, apertada, sufocante porque o que Baltazar faz com sua esposa Ermesinda não tem justificativa.

O machismo e a situação da mulher tão subjugada e tão sem chance de se defender, mesmo quando tem poder e dinheiro (d. Catarina, esposa de Dom Afonso, maltratava os servos, mas era desprezada e ignorada por seu marido), é um ponto central na obra.

Me lembrei de dois livros: Dom Casmurro, de Machado de Assis, com seu ciúme doentio e a apresentação de uma traição apenas pelo ponto de vista do marido narrador; e Conversas e histórias de mulher, de Mary Del Priore. Segundo Del Priore, “na legislação lusa e na sociedade colonial, a punição do assassínio do cônjuge por adultério era desigual. Enquanto para as mulheres não se colocava sequer a possibilidade de serem desculpadas por matarem maridos adúlteros, aos homens a defesa da honra perante o adultério feminino comprovado encontrava apoio nas leis. O marido traído que matasse a adúltera não sofria nenhuma punição. Diziam as Ordenações Filipinas: Achando o homem casado sua mulher em adultério, licitamente poderá matar assim a ela, como o adúltero, salvo se o marido for peão, e o adúltero, fidalgo, desembargador, ou pessoa de maior qualidade. Assim, enquanto a condição social do parceiro do adultério era levada em conta, a condição social da adúltera não se revestia da menor importância; tanto podia ser morta pelo marido a plebeia como a nobre.”

Baltazar Serapião, por pior que fosse, também estava subjugado ao poder de Dom Afonso, seu senhor, aquele que era dono não só das terras, mas também de tudo que ali estava e (sobre)vivia, homens e mulheres, podendo usar e abusar deles o quanto lhe aprouvesse:

e, quando a ermesinda veio, entrou do nosso lado da casa, solta das demoras de dom afonso, preparada para se explicar, sabia eu, e surpresa com a minha aparição gaguejou algo que não ouvi, tão grande foi o ruído de minha mão na sua cara, e tão rápido lhe entornei o corpo ao contrário e lhe dobrei o pé esquerdo todos os sentidos (…) mas poupá-la da morte era o único que me permitia, tão louco de paixão estava, tão grande amor lhe tinha, não poderia matá-la. de outro modo acabaria também de remorsos. (p. 63)

(…) e avisa a tua mulher que a quero cedo como sempre, a entrar com as ordens que lhe dei. já sabe do caminho pela porta que se abre, sabe dos passos leves a dar no corredor e onde esperar quieta por que a venha ver. e em surdina me gritou que saísse, como me mandou calar para pedidos últimos, lamentos ou refilos que não queria conhecer. (p. 73)

O poder sobre a mulher é tanto, que até o filho ratifica o direito de o pai matar a esposa (mãe) por suspeita de traição:

(…) achas que farias tal coisa, perguntou o teodolindo. tenho tanta certeza que até já o vejo, uma lâmina na mão e de um só golpe fá-la em morta. e isso não pode ser prevenido, baltazar, achas que isso não pode ser prevenido. e eu respondi, não. vai ser assim porque o meu pai precisa. (p. 79)

(…) e foi no dia em que o povo se preparava para queimar mulher que se portava mal que o meu pai rebentou braço dentro o ventre da minha mãe e arrancou mão própria o que alguém ali deixara. e gritou, serás amaldiçoado para sempre. depois estalou-o no chão e pôs-lhe pé nu em cima, sentindo-lhe carnes e sangues esguicharem de morte tão esmagada. e como se gritava e mais se fazia confusão, mais se apagava a minha mãe, rápida e vazia a fechar olhos e corpo todo, não mais era ali o caminho para a sua alma, não mais a ela acederíamos por aquele infeliz animal que, morto, seria só deitado à terra para que desaparecesse. (p. 85-86)

E o homem justifica seus atos com o poder, que ele mesmo imputou a si, de julgar e condenar para… salvar!

(…) entreguei-a a deus para que se livre dos seus pecados, estará limpa em pouco sofrimento que da terra já levava tanto, estará no paraíso à minha espera, minha mulher, recomposta de formas e saúdes físicas e espirituais, dotada da sabedoria das almas quando livres, e apaixonada por mim eternamente. (p. 96)

São essas e outras as lições que um pai – autoritário, machista, preconceituoso e logicamente ignorante – passa a seus filhos. Baltazar Serapião aprendeu nos mínimos detalhes, e o sofrimento de Ermesinda descrito capítulo a capítulo é desconcertante.

Ler esse livro e pensar que, em pleno século XXI, ainda há pessoas que reprovam as lutas feministas; que consideram que a mulher deve ser respeitada, mas tem um papel de devoção ao esposo; que as roupas femininas e seus atos podem justificar atos de violência masculina etc. etc. etc. é perceber que nem todos conseguem se abrir para a realidade, para os problemas sociais… Preferem esconder, tapar, ignorar a verdade, pois assim fica mais fácil viver. Afinal, a ignorância é, muitas vezes, uma dádiva.

Deixo aqui um artigo do jornalista e teólogo Juan Arias sobre o poder das armas para os homens em oposição ao desejo das mulheres.

Agora só falta ler um dos livros de Valter Hugo Mãe publicados e disponíveis no Brasil: homens imprudentemente poéticos. 🤗

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