Wanderlust (série Netflix)

Aí, Sérgio, vi e fiz a resenha. Lá vai!

Segundo meudicionario.com.br, wanderlust é uma palavra de origem alemã que define “o sentimento que uma pessoa tem em viajar, de se deslocar de lugar (…) mas também com todas as sensações físicas e psicológicas que envolvem esta ação e as experiências que as acompanham”. Ainda segundo o dicionário, a palavra se forma a partir da “junção de Wander, que significa ‘migrar, trilhar, vagar’, mais lust, que quer dizer ‘desejo, luxúria, vontade profunda'”.

Pelo que entendi, a proposta inicial da série Wanderlust, disponível no Netflix, é apresentar questões sobre casamento aberto. O que vi, entretanto, foi uma grande reflexão sobre um casamento de muitos anos que entra no estágio de uma relação acomodada e burocrática que passa a gerar incômodos, principalmente numa idade em que ambos, homem e mulher, questionam-se se não deveriam curtir algo além do básico e clássico “feijão com arroz” a que estão rotineiramente acostumados.

Sendo o marido, Alan, professor de inglês e a esposa, Joy, terapeuta, a relação de ambos, caracterizada por uma linda e enorme casa repleta de livros, não poderia ser algo simples e cotidiano. Ambos têm sede de vida e de conhecimento, de histórias, reflexões e sentimentos. Ambos precisam falar – e falar muito! – para existir e entender a si mesmos, além, é claro, de não implodir com tantas questões que passam em suas cabeças efusivamente pensantes (particularmente entendo muito bem esta parte da cabeça em ebulição rsrs).

A série de apenas seis episódios, pelo menos na primeira temporada disponível até o momento, não é tão envolvente. Há, porém, partes em que o diálogo entre as personagens mostra muito mais do que as cenas que se apresentam aos nossos olhos. O que se tira dali é que a complexidade do ser humano e as teias construídas geram desejos e traumas, escolhas e (re)ações, idas e vindas muito mais intrincadas do que podemos controlar. E isso fica bem claro não só nos problemas do casal em si, mas dos filhos gerados nessa relação. Aliás, embora haja uma terrível superficialidade na apresentação dos filhos, é possível perceber marcas deixadas pelos erros e acertos, assim como pelos atos conscientes e inconscientes dos pais.

Com algum spoiler no próximo parágrafo.

O que mais me chamou atenção é o que se propõe como sendo amor ao final. O amor maduro, num casamento de muitos anos, não é necessariamente a manutenção de sexo quente e/ou com intensa constância, como também, pode-se entender pelo contexto geral, não é algo diferente ou acrobático. Amar é estar junto, conhecer o outro, suas falhas e manias, suas necessidades e medos, seus costumes e olhares. Amar é saber compartilhar o mesmo espaço na sua rotina diária, com intimidade. A cena em que Alan simplesmente entra no quarto e encontra as abotuaduras da camisa e, depois de transarem, Joy, olhando para o teto, se levanta e vai até à janela, enquanto o marido dorme tranquilamente, mostra o quanto a rotina pode ser banal (ou chata) e, ao mesmo tempo, suave e relaxante, isto é, fundamental para continuarmos a viver o conjunto maior que nos faz felizes.

A felicidade ou realização pessoal não está numa coisa boa aqui outra coisa boa ali, mas num conjunto de coisas – boas e ruins; quentes, frias e mornas; complexas e simples; rápidas e duradouras; certas e erradas – conectadas e colocadas numa balança de pesos que deve se movimentar de um lado e de outro sempre almejando manter-se num movimento suave, mas constante, entre os dois pratos. Afinal, só parado no meio, totalmente equilibrado, também não tem graça alguma.

Uma observação extra:

O 5o episódio, para quem gosta do processo analítico, é sensacional. Quase todo ele se passa no consultório da terapeuta da Joy, num diálogo intenso e extenso entre as duas, em um processo de (re)conhecimento de sentimentos, ações e reações que a levaram a fazer determinadas escolhas na vida. É forte, tenso e muito interessante.

No cômputo geral, até mesmo para quem não gosta muito de série como eu, acho que tudo que nos faz sair do lugar comum e pensar fora da caixinha vale a pena. Mas Wanderlust me parece mais interessante e indicada para pessoas com alguma experiência em tempo de vida em relacionamento comum.

2 comentários

  1. Excelente Tati! O lance dos filhos me pareceu que será (?) desenvolvido nas próximas temporadas… a conferir. Porque cada um deles, tem material para muitos desenvolvimentos!

    Sobre as personagens principais (e seus dramas) achei interessante você não as achar envolventes (ou seria a série que não te envolveu)… Se fosse a Joy comentando aqui… daria alguma explicação psicanalítica 🙂

    Como de costume, muito bom ler suas resenhas… by the way, já assisti a Esposa (que gostei) então se tiver tempo e interesse veja – O confeiteiro. É o candidato israelense de filme estrangeiro ao Oscar. A temática pode não te agradar, mas você talvez curta a “estética da narrativa” 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    • Acho que esperei mais da série… A proposta me parece bem bacana, mas achei que os personagens não cresceram, talvez, como eu imaginava para o tema.
      Adoraria ver uma justificativa da Joy. 😀 Aliás, há uns bons desdobramentos para conversas no que tange à sexualidade e às expectativas femininas em oposição às masculinas. No 1o e no 2o episódios e ainda no último – nas cenas de sexo entre os dois personagens principais e, no início, deles com outros parceiros –, questões desse tipo ficam bem explícitas. Tema legal para se discutir com gente com experiência longa de relacionamento.
      Sobre o filme “A esposa”, vc já viu que não gostei muito, né?
      “O confeteiro” ainda não consegui ver, mas tá na lista.
      Valeu muito o papo embora curto e rápido. Precisamos marcar chope.

      Curtido por 1 pessoa

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