O apocalipse dos trabalhadores – Valter Hugo Mãe

Como escreveu Caetano Veloso na música “Dom de iludir”, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Pensando nessa letra, terminei a leitura de O apocalipse dos trabalhadores, o quarto livro seguido de Valter Hugo Mãe que leio, de dezembro para cá. Até o momento, talvez, tenha sido o mais difícil. O que não significa que tenha gostado menos.

Como já vemos de cara no título, os personagens centrais são trabalhadores, termo que se traduz como aqueles que são explorados, oprimidos, e que lutam por uma sobrevivência minimamente digna, a qual, quase nunca, conseguem. O interessante é que Mãe impõe duas únicas marcas gráficas ao longo de todo o texto: letras minúsculas em tudo, sem exceção, e apenas ponto no final das frases. Não usa interrogação ou exclamação, por exemplo. Talvez, dessa forma, ele coloque, ao menos na teoria, todos num mesmo patamar: pobres e ricos; patrões e empregados, pois é justamente sobre as diferenças, a partir do sofrimento dos que são explorados, na vida prática, que ele vai desenvolver a sua narrativa em minúsculas.

maria da graça, quitéria e andriy pertencem ao mundo dos explorados; senhor ferreira e outros patrões que são rapidamente mencionados, dos ricos. A sobrevivência dos oprimidos se passa poeticamente, no estilo de Mãe, pelo sonho. É o direito de sonhar que, acima do medo, do cansaço e das ausências materiais, permite que os seres oprimidos não enlouqueçam nem morram, embora a morte seja uma presença forte na vida de todos eles, até mesmo como um ganha-pão extra (quitéria e maria da graça são carpideiras, aquelas mulheres contratadas para chorarem o defundo a noite inteira de velório).

Interessante também é perceber no imaginário popular, por meio da personagem maria da graça a dualidade entre céu e inferno. Em seus sonhos, suas conversas com são pedro são um ponto forte da história. Ela é uma simples “mulher-a-dias”, expressão portuguesa que designa diarista. E como mulher-a-dias é usada ora como empregada, ora como mulher a ser usada por inteiro pelo solitário, velho e rico patrão que lhe paga nada além do combinado pelo trabalho servil contratado.

és uma empregada, dizia-lhe a amiga, a menos que esses homens tenham inventado o cif liquido marine não me parece que te façam mais feliz. fazem-me mais triste, eu sei, mas estiveram sempre convencidos de que a obra que deixaram me haveria de fazer feliz. não penses nisso, mulher, trabalha e avança. não penses. e se tenho de pensar depois, às portas do céu, a querer entrar e a ter de justificar tudo. não existem portas no céu, só nuvens e espreguiçadeiras. pois é. tenho de convencer os sonhos disso, que a vida é difícil o suficiente para se exigirem responsabilidade pelo que dela fazemos.

era dia cinco e revoltava-se por ter de ir trabalhar. alguns feriados haviam de ser para todos, pensava, e o velho maldito não lho quis dispensar, ao dia, retornava ela, não lho deu para que descansasse. mas, não obstante, pôs-se cheio de falas mansas sobre a importância da data, a pregar sermões eloquentes, como um político ou dono de um cavalo de dentes pobres ensinado a não sorrir. (p. 36)

Um outro personagem que não posso deixar de mencionar é o andriy que, aos 23 anos, sai da Ucrânia, deixa pai e mãe naquele país sem futuro, migra para Portugal e torna-se, lá, um operário explorado da construção civil. Para sobreviver às adversidades de imigrante e manter seu emprego, andriy transforma-se numa máquina, pois os que vêm de fora têm de ser mais resistentes.

o andriy entrou em casa e prostrou-se na cama. ficou de botas no ar, o corpo grande de mais a ocupar o tão exíguo espaço da sala. dividia um pequeno apartamento, de apenas dois quartos, com outros cinco homens, e a ele tocara-lhe dormir na sala, ao lado do mikhalkov, o russo que lhe falava das portuguesas como porcas, o andriy não estava com vontade de ouvir nada. ficava masculino, calado de chumbo a querer empedernir para secar todos os sentimentos. se pudesse, esquecia-se de ser emotivo, gostava de acreditar que a vida podia existir apenas como para uma máquina de trabalho perfeita, incumbida de uma tarefa muito definida, com erro reduzido e já previsto, e com isso atender ao mais certeiro objectivo, enviar algum dinheiro para a família na ucrânia, e nem pensar muito nisso e nunca dramatizar a questão. (p. 57-58)

É, assim, através das dores e das pequenas alegrias de cada uma de suas personagens criadas que Mãe nos mostra a sua percepção das relações de trabalho entre explorados e exploradores, quem tem voz e vez e quem não as tem, e porque tantas pessoas, muitas vezes, se submetem a situações tão indignas de sobrevivência. Mas há algo que se sobrepõe a todos os abusos e dores: a amizade e o amor. O autor de novo, como fez no livro infantil O paraíso são os outros, defende por meio de suas personagens femininas, agora com maria da graça e quitéria, que a amizade e o companheirismo são a base do nosso existir no mundo.

a quitéria ressonava levemente e a maria da graça repensava tudo aquilo. que uma mulher confessava o adultério se estivesse apaixonada, de cabeça perdida, já sem querer saber das consequências. se sabia bem não existir plano algum, seria verdade por todas as provas que estaria de cabeça perdida pelo maldito. e se assim fosse, estando ele morto sem regresso, a sua vida seria uma lenta aflição por esperar quem nunca poderia voltar. cotovelou a quitéria ao de leve, depois violentamente, gritou, quitéria, não me leves a ver um homem sem cabeça, tenho medo, toda a gente está a morrer, eu vou morrer, quitéria, eu já vou morrer. e era verdade, sabiam as duas no seu íntimo que a maria da graça morreria em pouco tempo. abraçaram-se assustadas. no centro da noite, muito irracionais, pressentiram que o mundo armava um cerco em seu redor como se implodindo cada coisa. (p. 86-87)

Mais uma vez, a literatura me permite colocar os pés no chão, de terra batida, para enxergar o outro não a partir do meu mundinho, da minha redoma, mas por meio de experiências de vida que somente a Arte me oportuniza viver.

Obrigada, Valter Hugo Mãe, por essa experiência.

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