Rakushisha – Adriana Lisboa

Para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é difícil. Dá para ter em mente pequenas metas: primeiro só a esquina. Aquele sinal com a faixa de pedestres e o homem esperando para atravessar com um guarda-chuva transparente e um cachorro de capa amarela.

O cachorro parece um labrador e olha para mim quando me aproximo.

Tem uma cara afável. Somos ocidentais nós dois, meu amigo. Se bem que você talvez tenha nascido aqui, não é? Nasceu? No canil de um criador? Claro, onde mais, você responde, com a paciência dos labradores.

Eu não nasci aqui. Não sei se você está muito interessado em saber. Sou do outro lado do planeta. Pode-se dizer que vim escondida dentro da bagagem de outra pessoa. É como se eu tivesse entrado clandestina, apesar do visto no meu passaporte. De fininho, para que não vissem as coisas invisíveis que eu trazia na mala. Que ninguém me veja ainda, que ninguém suspeite. Nesse sentido sou bem mais ocidental do que você, meu amigo de capa amarela. Não pertenço a este lugar.

E por que exatamente estou aqui, então, você poderia me perguntar se tivéssemos mais tempo para trocar olhares, se a sua coleira e o seu dono já não fossem te puxando para as suas obrigações – sejam elas quais forem, acompanhar, guiar, divertir.

Não sei muito bem, para ser honesta. Estive reaprendendo a andar. Depois da tempestade, da era glacial, da grande seca, a gente pode usar a imagem que quiser, ninguém vai se importar muito, afinal quem somos nós se não menos do que anônimos aqui. Abriu-se esta porta. Agora não dá tempo de te contar como aconteceu. E ainda não sei se andar equivale a lembrar, se equivale a esquecer, e qual das duas coisas é o meu remédio, se nenhuma delas, se nenhuma opção existe e se andar é o mal e o remédio, o veneno que tece a morte e a droga que traz a cura. Se vim para lembrar – se vim para esquecer. Se vim para morrer ou para me vacinar. Talvez eu descubra. Talvez nunca seja possível descobrir, desvelar, levantar o toldo, remover qualquer traço de ilusão da ilusão de caminhar.

Seja como for. É só colocar um pé depois do outro.

Um pé depois do outro. Ignorar o peso das pernas. Afinal este corpo é uma máquina que não tem motivos para estar apresentando defeito, ainda não (…) (p. 11-13)

É assim que inicia o belíssimo romance Rakushisha, de Adriana Lisboa. A narrativa se constrói por um mosaico de vozes antigas e modernas, que se misturam e se complementam e nos levam a acompanhar e perceber o processo de sobrevivência e recomeço da personagem Celina.

É com essa linda releitura que quero fechar meu ano e iniciar 2019. Afinal, “para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro”.

Que venha 2019 com tudo o que queremos, mas também com o que tememos e não há como evitar. Que tenhamos força, garra, coragem e discernimento para viver um dia após o outro, nos próximos 365.

A viagem nos ensina algumas coisas. Que a vida é o caminho e não o ponto fixo no espaço. Que nós somos feito a passagem dos dias e dos meses e dos anos, como escreveu o poeta japonês Matsuo Bashő num diário de viagem, e aquilo que possuímos de fato, nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar. (p. 14)

LISBOA, Adriana. Rakushisha. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

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