A desumanização – Valter Hugo Mãe

Em “nota do autor”, ao final do livro A desumanização, Valter Hugo Mãe diz “Sei que este livro é uma declaração de amor esquisita, mas é a mais sincera declaração de amor aos fiordes do oeste islandês”. Esse comentário de Mãe é, no mínimo, pertinente para a nossa sociedade atual, que só deseja e/ou aceita o belo como sinônimo de felicidade e alegria. A história, porém, em consonância com a beleza cinza, gélida e sombria da Islândia e com a falta de humanidade do ser humano traz o belo pelo sofrimento e melancolia profundos: “A ver a imensidão dos fiordes, as montanhas de pedra cortadas por rigor, o movimento nenhum, achei que o mundo mostrava a beleza mas só sabia produzir o horror”. (p. 21)

Há algum spoiler.

A narradora, uma menina dos 11 aos 13 anos, apresenta-nos o seu mundo por meio da dor que assola a sua família. Sua irmã gêmea morre e ela perde, ao mesmo tempo, metade de si mesma e sua mãe, que não consegue lidar com aquela dor profunda e a afasta porque tudo nela lembra a outra que não mais está lá. E Halldora, ou simplesmente Halla, mostra que a dor de sua mãe é tão grande, que ela precisa, volta e meia, cortar a própria pele para que a dor física a deixe suportar a dor da alma que a sufoca e a enlouquece:

“A minha mãe bateu-me. Sentiu-se revoltada por me mostrar tão egoísta. Lembrou-me que eu só voara por ter a minha alma e a alma de Sigridur dentro do balão estreitinho do corpo. De outro modo, bateria com a cabeça nas rochas a rebolar até ao mar, igual a uma coisa burra qualquer. Estúpida. A minha mãe, mais horrível e sempre mais horrível, cortou-se no interior de um braço para acalmar e guardou mal as facas. Deixava-as sobre a mesa e sobre a banca, como a precisar de as ver, talvez para correr a usá-las se lhe viesse um pânico qualquer.” (p. 29)

Se a idade da narradora parece que vai nos trazer visões de uma criança, já nas primeiras páginas percebemos a profundidade e o processo de amadurecimento daquela menina que se faz mulher em tão pouco tempo. A própria Hallo percebe o envelhecimento de seus pais e o seu próprio: “a tristeza colocara os meus pais e as coisas todas a envelhecer. (…) O tempo também se conta pelos desgostos”. (p. 54)

É com toda essa tristeza e melancolia que Mãe nos leva a perscrutar a dor e o amadurecimento de uma criança, que precisa superar a perda da irmã gêmea, a loucura da mãe que também a maltrata fisicamente, a tentativa sofrida de o pai lhe dar algum amor e aconchego por meio da palavra, da poesia, mas que não tem condições de superar todo o terror psicológico imputado, e o abuso não só de um homem infanitilizado, como também da sociedade, que acaba por se preocupar mais com as aparências (esconder uma criança grávida para não fazer alardes) do que com o sentimento e saúde da menina.

Valter Hugo Mãe consegue abordar de forma poética, mas não menos contundente, ao contrário!, a dor por que muitas crianças passam e que são totalmente negligenciadas: “O pior amor é este, o que já é feito de ódio também. O pior amor é este, o que já é feito de ódio também. O pior amor é este, o que já é feito de ódio também.” (p. 111)

“Não é sobre o corte nas pernas que me interessa pensar, pai. O corte entre as pernas não foi sequer capaz de me afastar a pele, porque a pele imediatamente se soube juntar e reconstruir. O que me magoa é mais violento do que isso. Porque à minha mãe posso odiar sinceramente, perdendo-lhe a ternura, como se exercesse um sentimento honesto, sem problemas maiores. O que me magoa está por definir e tem-me aqui presa quanto me obriga a fugir. De igual modo me propõe a morte e a vida ao mesmo tempo.” (p. 73)

Fico imaginando a leitura superficial de pessoas preconceituosas que podem, simplesmente, falar em apologia à pedofilia. A obra, entretanto, traz o grito desesperado de uma criança que acaba por amar seu algoz porque não lhe sobra muito ao redor. O fim, porém, é surpreendente. E a libertação ratifica todo o processo de desumanização para a sobrevivência em um mundo tão árido e insensível às dores alheias.

O livro é simplesmente bárbaro! A leitura me destroçou por dentro ao experimentar por meio de Hallo uma dor que palavras, na teoria, não nos mostram a realidade, mas a literatura nos permite viver e, assim, gerar empatia pelos que a sofrem, de fato.

“Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos. As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem ouvir, sem falar. Não sabiam sequer o sabor das batatas. Só os livros explicavam tudo. As pessoas que não leem apagam-se do mapa de deus.” (p. 133)

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