“Às cegas” ou “Bird Box” (Netflix – 2018)

Não assisto a filmes de terror, mesmo os que não são tão diretamente caracterizados nesse gênero. Morro de medo! Entretanto, apesar do receio inicial baseado nesse medo, o fato de Sandra Bullock ser a protagonista de “Às cegas” acabou por me convencer a vê-lo. Ainda bem! Porque, mesmo o trailer mostrando um suspense bem assustador, o filme não é, de fato, de terror.

Bem, não é um filme imperdível, mas deu pra me fazer pensar algumas coisas bem legais. E é isso que mexe comigo e que me faz ver que valeu a pena.

O filme é baseado em um livro que não li, de um autor que não conheço. Portanto, minha análise baseia-se puramente na minha experiência com o longa-metragem. Contém spoiler.

A história mostra a luta pela sobrevivência ao fim do mundo. Um “vírus” ataca a humanidade e faz homens, mulheres e crianças enxergarem seus medos e traumas, levando-os a uma morte imediata, quase sempre por suicídio. Para fugir desse ataque, as pessoas precisam ficar fechadas dentro de casa, sem olhar para nada do lado de fora, com janelas tapadas, vedadas e/ou com os olhos vendados. O mínimo contato com o mundo externo pode levar o ser humano à morte.

O interessante disso tudo é descobrir, num primeiro momento, que os loucos não são atingidos por esse vírus ou, quem sabe, loucura da mesma forma. Eles não só sobrevivem, como enxergam a beleza de um mundo diferente e, segundo eles, muito melhor. Talvez, por isso, desejam que todos abram os olhos a fim de também poderem ver esse mundo e poderem aceitá-lo com suas maravilhas.

O que tanto me interessou no filme?!

É muito libertador descobrir que o vírus são os nossos medos e temores e que são eles que nos levam à morte.

É também interessante descobrir que loucos sobrevivem, já que não percebem o medo como os seres humanos normais. Embora haja questões a discutir aí – porque eles acabam levando muitas pessoas à morte desejando libertá-las da mesma forma como se sentem livres -, é curioso, ao menos, refletir sobre o não reconhecimento do mundo como ele é ou o não reconhecimento de regras ou imposições castradoras que se impõem sobre nós, nos limitando e aterrorizando.

E mais! A gente também descobre que os cegos são outros sobreviventes e que as pessoas que enxergavam só têm uma chance de sobreviver ao mundo externo: vendando os próprios olhos e desenvolvendo outros sentidos como a audição e o tato.

O que tiro disso?

Precisamos viver o hoje como se fosse o último dia, fazendo o nosso melhor sempre, sem achar que há chance para se arrepender e tentar de novo. Às vezes, acho que essa possibilidade de arrependimento é um desserviço da cultura cristã, pois acaba nos permitindo cometer injustiças, negar direitos a outros etc. acreditando que há tempo de pedir perdão para conquistar a salvação. A salvação, entretanto, é aqui. Precisamos ficar cegos para enxergá-la. Só assim ouviremos o som do que vem do alto (no filme são os pássaros), o som que nos protege do mal (dos nossos medos, das nossas limitações humanas).

Enquanto mantivermos nossos olhos abertos como estão hoje, permaneceremos contaminados da cegueira humana. Se nos permitirmos fechar os olhos humanos para abrir os olhos do coração, conseguiremos ouvir o caminho para a vida.

3 comentários

  1. Interessante essa abordagem. Achei o filme chato (também detesto filme de terror! E nem era o caso mesmo). Mas se todos que assistem o filme pudessem perceber essa anomalia da culpa judaico-cristã já teria teria válido a pena. Confesso que vi o filme como segunda tela de tão desinteressado que estava. E não achei essa bolacha toda que todos falavam! Na Netflix gostei mais da série Wanderlust. Não é hypada, só tem 6 episódios e trata de um tópico central da moral judaico-cristã. Recomendo!

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