Marcos Bagno fala sobre o tosco projeto de lei Escola Sem Partido

Nós somos seres condenados a significar. A fala neutra é uma impossibilidade em termos. Toda palavra proferida é carregada de tudo o que somos, temos sido e seremos. A própria capacidade de falar é histórica, socialmente situada: não aprendemos a falar porque um deus nos soprou ao ouvido. A língua é uma história, por isso mesmo é que se transforma ao longo do tempo, junto com a sociedade. A sincronia é uma quimera: tudo o que dizemos e ouvimos é uma cápsula do tempo em que dias, anos e séculos se entrecruzam. Um ensino/aprendizagem sem produção de sentido, sem construção de significado, é algo que somente as distopias literárias e cinematográficas podem tentar, mas sempre fadadas ao fracasso, já que se fazem com… palavras. Nem mesmo um robô conseguiria dar aulas “neutras”, porque alguém teria de emprestar sua voz à máquina, e não há voz neutra. Para cumprir o dejeto de lei (porque projeto de lei é outra coisa, ao menos em países civilizados) que tenta nos transformar em cascas vazias, teríamos de entrar em sala, nos sentar à mesa diante dos alunos e não dizer uma só palavra durante toda a aula. Sim, e de óculos escuros, porque os olhos falam muito. De fato, falar é tão entranhadamente humano que a fala se manifesta não só pela boca, mas pelas mãos, pelos pés, pelos olhos, por todo o corpo que, se é corpo humano, é corpo feito de linguagem. E nada fala mais alto do que o silêncio. Mais prático, mais realista e mais barato é simplesmente eliminar a educação da vida em sociedade, fechar todas as escolas, todas as universidades, todas as bibliotecas, todos os teatros, todos os cinemas. É inacreditável que 2.500 anos de tradição filosófica sobre a linguagem (e isso só no Ocidente) sejam desconsiderados como se toda essa reflexão não tivesse tido o imenso impacto que teve na formação mesma da civilização. Quem deseja uma fala neutra sofre de tanta estupidez que não se dá conta de que sua própria fala não é neutra, é carregada. No caso desse dejeto de lei, carregada de um desprezo profundo pela inteligência, pela cultura, pela arte, pela civilização. Existe neutralidade no Hino Nacional? Existe neutralidade em qualquer versículo mínimo da Bíblia? Existe neutralidade na fala de quem diz que vai matar indiscriminadamente, que é a favor da tortura, que prefere um filho morto a um filho homossexual? Há neutralidade em dizer que vamos combater os inimigos externos e internos? Uma escola sem partido é, obviamente, uma escola partidarizada para o que há de mais tosco, sórdido, vil e abjeto na sociedade brasileira neste momento. E é, sobretudo, uma ideia burra.

Marcos Bagno

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