Pais, Whatsapp, censura… O livro proibido no CSA

O texto abaixo foi publicado, dia 04/10/2018, no Extra. Compartilho-o aqui porque a autora, Mônica Raouf El Bayeh, conseguiu costurar tudo o que estava passando em minha cabeça e eu gostaria de ter escrito.

Eles parecem inocentes. Dão bom dia, boa tarde, mandam figurinhas simpáticas. Você acha que está entre amigos, relaxa. Pessoas de bem. Pais dedicados. Adultos inocentes e pacíficos que só querem o melhor para suas criancinhas. Vai achando.

Eles são encantadores. Até que a professora, cansada de ser destratada pelos pequenos monstros, se irrita e fala mais alto. Ou quando aquele menino autista, de jeito diferente, seja matriculado na turma do filho deles.

Quando o filho único e muito amado, que eles preferiram não educar, seja chamado a atenção. Quando o professor toma o celular que estava sendo usado no meio das aulas. Ou quando o professor se nega a inventar nota para o coitadinho passar.

Eles são uma graça, até mostrarem as garras e se juntarem para pressionar a direção. É a máfia do whatsapp atacando novamente. Dessa vez no Colégio Santo Agostinho do Leblon.

As escolas particulares andam passando um perrengue grande. A classe média desempregada, muito fina, mas dando calote nas mensalidades. O número de alunos caindo a cada ano. Difícil desagradar os pais. Melhor ceder e manter o aluno, claro.

Se fosse uma escola pequena, dessas desconfortáveis tipo puxadinho, eu entenderia. Poucos alunos, tempos de crise. Qualquer negócio para não perder a quantidade de matrículas.

Mas o Santo Agostinho? Escola tradicional e séria? Sempre tive essa escola em alta conta. Sempre ouvi só elogios. Por isso minha surpresa foi ainda maior.

Quando a escola é séria, para um livro ser indicado nela, é preciso um estudo. Um planejamento. Ele tem um objetivo. Uma meta. Ele vem com uma função. Ser retirado justo pela função que ele vem cumprir? Não faz nenhum sentido.

Tirar o livro por pressão dos pais é reconhecer um erro que não havia. Uma certa humilhação. Desqualificação do corpo docente. Ou cinismo. Vamos ficar quietos e ver se eles se acalmam. Mas se acalmam? Ou só tomam mais força para a próxima.

O livro causador de discórdia se chama Meninos Sem Pátria. Foi escrito por Luis Puntel. É inspirado na história real do jornalista José Maria Rabêlo que teve que deixar o país, se exilar junto com sua família, para se livrar da perseguição que sofria pela ditadura militar.

De acordo com a máfia, o livro doutrinaria criancinhas. Seria uma forma de propagar a ideologia comunista em sala de aula. Divulgaria a ótica da esquerda. Criticaria os governos militares.

A censura ao livro de Luis Puntel dá início a uma nova etapa. Chico, Caetano, Gilberto Gil, entrarão de novo na lista? Ou agora será a vez de novos artistas? Voltaremos a ter que escrever e criar como se estivéssemos falando de outras coisas? Fingindo inocência?

Vamos ter que fazer de conta que a ditadura realmente não aconteceu? Sumiremos impunemente como tantos outros? Seremos assassinados por suicídio?

O colégio Santo Agostinho tem padrão e competência suficiente para dizer:

– Porta da rua é serventia da casa.

Para botar o limite na mesa e dizer que ali quem manda são os professores escolhidos e competentes para isso. Que são os que estudaram para isso. E que fazem um trabalho sério e bem estruturado.

Então por que ceder? Por que não vir à público se defender? Expor suas razões? Por que não aproveitar e por mais esse motivo discutir o livro? Por que dar poder a quem não merece?

Por que não abrir o debate? Trabalhar o tema em comunidade? Abrir a discussão? Abrir mentes e preconceitos rançosos?

Toda escola tem um compromisso. Sua função é promover conhecimento. Abrir questionamentos. Formar melhores pessoas. Falar de um passado doloroso é parte dessa função. Mostrar como chegamos lá e como podemos, perigosamente, estar voltando, também.

Repensar, voltar atrás é uma atitude nobre. Quando se estava errado. Não é o caso. Uma escola que se retrai quando está certa deixa sua comunidade envergonhada. Humilhada. Constrangida. Ainda não entendo o motivo de reação. Uma pena mesmo. Destoa de tudo que sempre ouvi falar.

Quando tudo vira comunismo, quanto nada mais pode ser dito ou lembrado, ouso dizer que os meninos sem pátria hoje somos nós.

Mônica é carioca, professora e psicóloga clínica. Especialista em atendimento a crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.

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